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Chapter 14 - CAPÍTULO 14 - UM REINO QUE APRENDE A SORRIR

Sozinha naquele espaço recém-desperto, permanece em silêncio por um longo momento. O reino ainda não tinha forma definida. Ele existia, respondia a mim, mas aguardava a direção. Era como um campo em branco, sensível a cada pensamento meu. E, pela primeira vez desde que me tornei deusa, senti algo muito próximo de insegurança.

Eu sabia o que aquele lugar precisava ser. Só não sabia como começar.

Fechei os olhos e respirei fundo. De alguma forma, mesmo sendo uma proteção, ainda carregava hábitos humanos. Pensar. Registrar. Buscar referências. E foi resultado: minha mente voltou para memórias antigas, de quando eu ainda era Maria.

O Livro da Vida. Coco.

Pontes que não separavam, mas uniam. Cidades coloridas cheias de música. Mortos que não eram tristes, mas vivos de outra forma. A ideia de comemorar quem partiu, em vez de apenas chorar.

Abri os olhos, sentindo um leve calor no rosto.

— Estou mesmo sem criatividade… — murmurei, quase rindo de mim mesma.

Havia uma pontada de vergonha ali. Uma parte de mim sentiu que estava copiando, que não estava sendo original ou suficiente. Mas outra parte — maior, mais honesta — sabia que aquilo fazia sentido. Não era imitação. Era camada superficial. Era a forma como eu entendia a morte.

Se o meu reino nascia da acessibilidade, da alegria e da, então lembrança ele primeiro parecerá assim.

Ergui as mãos.

Não forcei o poder. Não o empurrei. Apenas estabeleci uma ligação clara entre dois pontos: o mundo dos vivos e aquele espaço silencioso. A resposta veio imediata, suave, quase agradecida.

A ponte foi a primeira coisa a surgir.

Ela não apareceu de uma vez. Formou-se lentamente, pétala por pétala, como se estivesse sendo tecida pelo próprio ar. As ofertas de cempasúchil brilhavam em tons dourados e alaranjados, espalhando um perfume delicado que parecia quente o ambiente. A ponte era longa, larga, e não parecia feita de matéria sólida, mas de memória e intenção.

Não era apenas um caminho. Era um convite.

Afastei o olhar da ponte e voltei-me para o céu.

O vazio escuro começou a mudar. Pequenos pontos de luz surgiram, primeiros tímidos, depois numerosos. Estrelas se espalharam, preenchendo o alto como se sempre tivessem estado ali. Em seguida, as auroras começaram a se formar, faixas de cores suaves — verdes, azuis, violetas — dançando lentamente.

Por fim, uma lua surgiu. Grande, serena, iluminando tudo com uma luz calma, constante. Não houve noite ali que inspirasse medo.

O reino precisava de chão.

A areia negra sob meus pés reagiu ao meu pensamento. Tornou-se terra fértil, escura e rica. Ondulações surgiram, formando colinas suaves, depois montanhas mais altas. A vegetação brotou sem pressa: árvores, campos, flores silvestres. Tudo em tons vivos de verde, como aquele mundo estava respirando pela primeira vez.

No centro desse espaço, decidi criar um vale.

E no coração do vale, a cidade.

A Cidade dos Mortos formou-se em um círculo perfeito. Casas surgiram uma a uma, coloridas, com fachadas simples e alegres. As ruas se desenharam entre elas, decoradas com flores, bandeirolas e pequenas luzes que jamais se apagariam. Era uma cidade feita para caminhar sem pressa, para conversar, para lembrar.

No centro exato da cidade, ergui o palácio.

Ele nasceu ao redor de uma árvore gigante. Seu tronco era largo, antigo, e seus galhos se estendiam por toda a construção, entrelaçando-se às paredes e aos corredores. Bandeirolas coloridas pendiam dos galhos, junto de luzes suaves que pulsavam como vaga-lumes. A árvore não era apenas decoração. Era símbolo. Raiz, memória, continuidade.

Atravessei as portas do palácio e criei a sala do trono.

O espaço era amplo, aberto, inundado de luz e cor. O trono surgiu no centro — imponente, mas acolhedor. Não feito para importar distância, mas para receber.

Senti-me por um instante, apenas sentindo o reino respirar comigo.

Então pensei em Amaru.

Com cuidado, invoquei sua alma. Ele surgiu ali, envolto por uma tranquilidade profunda, ainda adornada. Aproximei-me e falei:

— Acorde. 

Amaru abriu os olhos lentamente.

O choque veio primeiro. Ele olhou ao redor, sem palavras, absorvendo cada detalhe: o céu colorido, a cidade viva, a ponte de garantia ao longe. Quando seus olhos encontraram o trono — e a mim —, ele tentou se ajudar.

Levantei a mão.

Uma força gentil o impediu.

— Não — disse com um sorriso. — Não aqui. Não para mim.

Levantei-me do trono e caminhei até ele. Fiquei diante de Amaru, olhando para nós, e senti uma profunda gratidão.

— Obrigada — falei, com sinceridade. — Pela fé. Pela coragem. Pela alegria com que você me encontrou no fim.

Expliquei então o que aquele lugar era. Um reino dos mortos, sim, mas um reino de celebrações. Um lugar onde a memória não se apagava e onde os mortos não caminhavam sozinhos.

Amaru ficou feliz, mas havia tristeza em seus olhos.

— E meus filhos? Meus netos?

Aproximei-me mais.

— Eles estão tristes — respondi. — Mas segue em frente. Eles se lembram de você. Isso é tão importante. Um dia, quando chegar a hora, vocês vão se reencontrar aqui.

Ele respirou fundo, concordando.

Com um gesto simples, abri as portas da sala do trono. Do lado de fora, a cidade pulsava em núcleos e música distante.

— Vá — disse. – Explore. Veja mais. Este reino existe para você.

Amaru caminhou para fora, os passos cada vez mais leves.

Fiquei ali, observando.

O reino estava criado. Ainda jovem. Ainda em crescimento. Mas vivo.

E, pela primeira vez desde que me tornei Catrina, senti que os mortos tinham um lugar onde não necessariamente temer o fim — apenas continue a história.

Depois que Amaru atravessou as portas do salão e se afastou entre os núcleos da cidade, o silêncio voltou a ocupar o espaço. Um silêncio diferente do vazio de antes. Agora era um silêncio vivo, confortável, quase respeitoso.

Voltei a me sentar no trono.

Por um momento, apenas observei. A sala pulsava com luz suave, a árvore ao redor do palácio parecia respirar junto comigo. O reino estava ali, existia, mas ainda precisava de direção. Não poderia ser apenas um lugar bonito. Precisava de sentido, de ordem, de propósito.

Respirei fundo e comecei a pensar no que vinha a seguir.

Se aquele era um reino dos mortos, ele precisava de regras. Não há regras duras, frias ou punitivas, mas limites claros, para que tudo continue funcionando em harmonia — para os vivos e para os que já fizeram o partido.

A primeira regra surgiu quase naturalmente.

Os mortos não estariam presos ali para sempre.

Decidir que, uma vez ao ano, aqueles que fossem lembrados com carinho poderiam atravessar a ponte de interesse e visitar o mundo dos vivos. Não para interferir, não para mudar destinos, mas para rever, confortar, celebrar. Um breve reencontro, suficiente para aquecer corações, mas curto o bastante para que ninguém se perca entre dois mundos.

A segunda regra veio logo depois.

O mundo dos mortos não seria uma continuação da vida como ela era.

Ali, não teria nascimento, nem novos laços que prendessem alguém ao passado. Nenhum morto poderia gerar filhos, criar novas raízes ou tentar reconstruir uma vida que já havia sido encerrada. Aquele reino existiu para a memória, não para a reprodução. Para seguir em frente, não para se agarrar ao que ficou para trás.

A terceira regra foi mais sutil.

Os mortos poderiam mudar.

No meu reino, as almas não seriam congeladas no momento da morte. Elas poderiam aprender, conviver, cantar, dançar, crescer emocionalmente. A morte não apagaria quem eles eram, mas também não os impediria de se transformar. Ser lembrado não precisava ficar preso a uma única versão de si mesmo.

E, por fim, estabeleci algo que considerei essencial.

Ninguém seria obrigado a permanecer.

Se uma alma, em algum momento, desejasse seguir além — para qualquer outro destino que existisse além da minha compreensão —, ela poderia partir. Meu reino não seria uma prisão dourada. Seria um lar enquanto fazia sentido.

Ao terminar de organizar esses pensamentos, sinta o reino responder. Não com palavras, mas com um leve calor, como se concordasse.

Faltava uma última coisa.

Um nome.

Observei novamente a cidade, a ponte, o céu iluminado, a árvore no centro de tudo. Pensei em Amaru, nos rituais, nas flores, nas histórias contadas ao redor das tochas. Pensei no que realmente sustentava aquele lugar.

Memória.

Enquanto alguém fosse lembrado, ninguém estaria realmente perdido.

decidida.

— Este será… — murmurei — a Terra dos Lembrados .

O nome ecoou pelo reino, suave e firme ao mesmo tempo. As luzes pareciam brilhar um pouco mais, as bandeirolas tremularam, e a ponte de especial cintilou à distância.

Recostei-me no trono, sentindo, pela primeira vez, que não estava apenas criando algo.

Eu estava começando um legado.

E, em silêncio, a Terra dos Lembrados recebidos de volta.

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