O templo estava em silêncio.
As chamas que antes aqueciam o lugar haviam se apagado havia muito tempo. O ar ainda carregava o cheiro de cinzas antigas, como se as próprias pedras se recusassem a esquecer quem havia existido ali.
Eu estava sentada no chão de pedra.
As costas apoiadas em uma coluna quebrada, o olhar perdido onde antes havia um altar. As lágrimas escorriam sem som, uma após a outra, sem pressa. Não era um choro de desespero, mas de luto — profundo, pesado, definitivo.
Todos haviam partido.
Não apenas Huehueteotl… mas um panteão inteiro.
Ergui o rosto devagar e encarei o vazio. Por um instante, a ideia de abandonar tudo passou pela minha mente. Voltar para a Terra dos Lembrados, fechar os olhos para o mundo dos vivos e deixar que a história seguisse sem mim.
Mas eu não fui feita para esquecer.
Apoiei as mãos no chão e me levantei. As pernas tremeram levemente, não por fraqueza, mas pelo peso do que eu carregava.
— Já que eles não serão lembrados… — murmurei, com a voz baixa — então eu lembrarei.
Não foi um juramento feito aos céus. Não houve trovões nem sinais. Foi uma promessa íntima, silenciosa e absoluta.
Eu me lembraria deles.
De seus nomes. De suas vozes. De sua existência.
Antes de partir, olhei o templo pela última vez. As ruínas cobertas de vegetação, o silêncio onde antes havia conversa e calor.
Então virei as costas.
E fui embora.
A Terra dos Lembrados me recebeu como sempre — viva, colorida, pulsante. As almas seguiam suas rotinas, as festas aconteciam, as ruas estavam cheias. Ainda assim, algo em mim havia mudado.
E o tempo avançou.
...
Cerca de cinquenta anos se passaram.
No mundo dos vivos, muita coisa mudou.
Onde antes havia apenas vilas improvisadas, agora existiam povoados bem estabelecidos. Igrejas de pedra erguiam-se onde antes havia templos antigos. As línguas se misturaram, as culturas colidiram, e uma nova ordem se consolidava lentamente.
Foi nesse contexto que Fernando surgiu.
O mar estava calmo naquela manhã.
Do convés do navio, Fernando observava o continente americano se aproximar lentamente. Jovem, de postura reta e olhos atentos, vestia os hábitos simples de um padre jesuíta. Em seu peito, a fé ardia com força sincera.
Antes mesmo de pisar naquela terra, ele já carregava uma imagem formada.
Pelas histórias que ouvira na Europa — relatos de marinheiros, cronistas e outros religiosos — acreditava que os povos que ali viviam eram selvagens, pagãos, presos a rituais bárbaros e superstições vazias. Almas perdidas, afastadas da verdadeira luz. Sua missão, diziam, era necessária. Urgente.
Ainda assim, ao olhar a terra ao longe, Fernando não sentiu repulsa.
Sentiu curiosidade.
O navio atracou, e ele desembarcou em uma pequena vila de exploradores, já estabelecida há décadas. Casas de madeira, construções simples de pedra, uma capela modesta erguida no centro. Ali se apresentou às autoridades locais, explicou sua missão, recebeu abrigo.
Nos primeiros dias, limitou-se à vila.
Observava, escutava, aprendia.
Mas logo percebeu algo: os nativos não viviam ali. Mantinham suas próprias aldeias, afastadas, próximas às florestas, aos campos, aos rios. E foi para lá que Fernando decidiu ir.
Sozinho.
Deixou a vila ao amanhecer e caminhou por trilhas de terra batida até se aproximar das tribos. No começo, apenas observava à distância. O cotidiano era simples: famílias reunidas, crianças correndo, vozes, risos, trabalho.
Nada da barbárie que lhe haviam descrito.
Com o passar das semanas, algo específico chamou sua atenção.
Em certas épocas, algumas famílias montavam altares. Flores coloridas, pequenas velas, alimentos cuidadosamente dispostos, nomes sussurrados em voz baixa. Não havia gritos, nem medo. Havia… lembrança.
Fernando decidiu perguntar.
Foi recebido com cautela, mas sem hostilidade. Ouviu explicações simples: aquilo era para os mortos. Para lembrar quem partiu. Para celebrar suas vidas.
Aquilo o desconcertou.
Em sua fé, a morte era envolta em silêncio pesado, em temor, em expectativa pelo juízo final. Ali, porém, via algo diferente. Não havia idolatria evidente. Nenhuma figura demoníaca. Nenhum sacrifício.
Apenas famílias, flores, velas, comida… e nomes.
Era humano.
Belo, até.
Fernando continuou observando, sempre mantendo sua fé intacta, mas já sem o desprezo inicial. Começou a perceber que aqueles rituais não negavam Deus. Eram uma forma de lidar com a perda. Um luto que não apagava o amor.
E então, uma dúvida perigosa nasceu em seu coração.
E se isso não for oposição? E se for apenas outro caminho para lidar com a morte?
À noite, de volta aos seus aposentos na vila, Fernando começou a escrever cartas. Descreveu os rituais com cuidado. Explicou o simbolismo. Destacou que não havia rebeldia contra Deus, nem culto explícito a entidades estranhas.
Defendeu que aquilo não precisava ser destruído.
As cartas cruzaram o oceano. Foram lidas, discutidas, analisadas. A Igreja, experiente em sobreviver, reconheceu o que sempre soubera: destruir tudo gera resistência. Adaptar gera continuidade.
A decisão foi tomada.
O ritual não seria combatido.
Seria absorvido.
Recebeu novos nomes, foi associado a datas cristãs, reinterpretado à luz da fé europeia. Falou-se de almas, de purgatório, de lembrança piedosa. Flores, velas e altares familiares foram permitidos.
Na superfície, era agora uma tradição cristã adaptada.
Catrina tornou-se, aos olhos do mundo, folclore. Cultura. Costume.
Mas no fundo… nada havia mudado.
Pois enquanto houvesse lembrança, enquanto houvesse celebração da passagem, o domínio continuaria ligado a ela.
E, mesmo invisível, Catrina sentiu.
A fé ainda fluía.
Talvez com outro nome. Talvez com outra linguagem.
Mas ainda era dela.
...
O silêncio na Terra dos Lembrados era diferente.
Não era vazio. Era denso, carregado de ecos — risadas distantes, passos que já não existiam, vozes que haviam atravessado a morte. Catrina estava sentada em seu trono, com as mãos apoiadas nos braços esculpidos da cadeira, o olhar perdido na cidade abaixo.
Então sentiu.
Não foi súbito. Foi como uma onda morna atravessando o peito.
Seu coração divino acelerou.
O ar ao redor pareceu vibrar, como se o próprio reino tivesse respirado junto com ela. Catrina franziu levemente a testa, surpresa, e fechou os olhos para sentir melhor.
Poder.
Muito poder.
— …o quê?
A energia fluía de todos os lados. Não apenas da região que ela conhecia. Não apenas das terras onde sua fé nascera. Vinha de longe. Muito longe.
Ela estendeu seus sentidos.
Viu flores sendo colocadas sobre mesas em terras que nunca visitara. Velas acesas em casas de pedra. Nomes sussurrados em línguas diferentes, com sotaques estranhos, mas com o mesmo significado.
Lembrança.Celebração.Aceitação da morte.
Seu domínio… estava crescendo.
— Eu sabia que isso aconteceria — murmurou, ainda incrédula. — Mas… não tão rápido.
A tradição havia mudado de nome. Havia sido vestida com outros símbolos, outras palavras, outros deuses aparentes. Mas o conceito permanecia intacto. E como ela sempre soubera, seu poder não vinha do nome que a chamavam — vinha do ato.
Do lembrar.
Do celebrar.
Da recusa em tratar a morte como inimiga.
A percepção se expandiu ainda mais.
Catrina abriu os olhos lentamente, sentindo algo novo se firmar dentro de si. Não era apenas poder bruto. Era alcance.
Ela compreendeu então.
Onde quer que houvesse uma celebração dos mortos — onde velas fossem acesas, flores oferecidas, nomes pronunciados com carinho — ela poderia estar.
Não como intrusa.Não como deusa distante.
Mas como presença legítima.
— Então é isso… — sussurrou, um sorriso surgindo aos poucos.
A Terra dos Lembrados respondeu. O reino pareceu vibrar, as luzes da cidade abaixo pulsaram suavemente, como se confirmassem sua compreensão.
Catrina apoiou-se melhor no trono.
Pela primeira vez desde que tudo começara, sentiu algo muito próximo de segurança.
A história seguia caminhos tortuosos. Os nomes mudavam. Os símbolos se adaptavam. Mas enquanto os mortos fossem lembrados… ela nunca seria esquecida.
E agora, o mundo inteiro começava a aprender a celebrar aquilo que sempre temeu.
