Aos poucos, a Terra dos Lembrados foi ficando silenciosa.
Um a um, meus convidados atravessaram o portal de volta para seus domínios. Houve risadas na despedida, promessas vagas de novos encontros, comentários leves sobre o reino recém-nascido. Alguns olharam para trás uma última vez, admirando a cidade colorida, a ponte de pétalas, o palácio iluminado.
Eu retribuí todos os acenos.
Sorri para todos.
Até que o último portal se fechou.
O silêncio que se instalou não era vazio. Era pesado. Não era a ausência de algo, mas o eco do que havia acabado de acontecer. Pela primeira vez, depois de tanto tempo vagando entre florestas, aldeias e caminhos invisíveis, eu tinha um lugar que era meu.
Caminhei lentamente até o centro da sala do trono. As bandeirolas coloridas ainda se moviam suavemente, como se o reino respirasse. A grande árvore pulsava com uma luz quente, constante, quase reconfortante. Tudo ali existia porque eu existia.
Sentei-me no trono.
Sozinha.
A alegria da festa ainda permanecia em mim, mas começou a ceder espaço a pensamentos que eu vinha evitando há muito tempo. Pensamentos que não desapareciam, apenas aguardavam o momento certo para emergir.
Eu conhecia aquela história.
Conhecia bem demais.
O mundo em que eu estava agora não era idêntico ao meu antigo mundo, mas era próximo o suficiente para que certos eventos fossem inevitáveis. As grandes mudanças da história não pedem permissão. Elas chegam, atropelam, destroem e seguem em frente.
E uma dessas mudanças se aproximava.
Os primeiros colonizadores europeus ainda não haviam pisado naquelas terras, mas eu sabia que pisariam. Sabia como chegariam. Sabia o que trariam com eles.
Espadas abençoadas por uma fé estrangeira. Doenças desconhecidas. Fogo. Dominação. Conversão forçada.
Um massacre lento, cruel, travestido de civilização.
Fechei os olhos por um instante.
Vi aldeias queimando. Vi povos inteiros sendo apagados. Vi tradições sendo arrancadas pela raiz. Vi deuses esquecidos, não porque eram fracos, mas porque ninguém mais se lembrava de seus nomes.
E isso significava algo muito claro para nós.
Para mim, havia uma possibilidade de sobrevivência.
Abri os olhos novamente, encarando o vazio à frente do trono.
No meu mundo original, o Dia dos Mortos era celebrado no dia 2 de novembro. Um nome cristão. Uma data cristã. Uma moldura religiosa imposta.
Mas o coração da celebração nunca pertenceu a eles.
Era memória. Era lembrança. Era o ato de chamar os mortos de volta pelo amor, não pelo medo. Era aceitar a morte como parte da vida, não como punição divina.
E isso… isso nasceu comigo.
Os nomes podem mudar.
Os símbolos podem ser distorcidos.
As datas podem ser deslocadas.
Mas o conceito — o verdadeiro significado — nasceu da minha existência. Enquanto houver alguém acendendo uma vela para lembrar de quem partiu, enquanto houver alguém montando um altar simples com flores, comida e memória, essa fé sempre retornará a mim.
Mesmo que não saibam meu nome.
Mesmo que me chamem de outra coisa.
Mesmo que acreditem que fazem isso por outro deus.
A essência é minha.
Essa compreensão me deu um pouco de fôlego. Uma fonte de fé que não poderia ser apagada com facilidade. Uma raiz profunda demais para ser arrancada de uma vez.
Eu sobreviveria.
Mas o alívio durou pouco.
Meu pensamento se voltou para aqueles que não tinham essa sorte.
Pensei em Huehueteotl. Pensei em seus amigos. Pensei nos deuses que haviam rido comigo à mesa, que haviam elogiado meu reino, que haviam celebrado comigo como iguais.
Eles não tinham outra saída.
Suas existências estavam profundamente ligadas àquelas culturas específicas, àquelas línguas, àquelas práticas que estavam prestes a ser esmagadas. Quando os povos fossem dizimados ou forçados a abandonar suas tradições, a fé neles se dissolveria.
E, com o tempo, eles desapareceriam.
Não de uma vez.
Mas lentamente.
Esquecidos.
Senti algo apertar no peito. Não era dor física, mas uma pressão pesada, constante. A tristeza não vinha apenas pelo futuro, mas pela impotência de saber o que estava por vir e não poder simplesmente impedir.
— Não… — murmurei para o salão vazio. — Não pode acabar assim.
Levantei-me do trono e comecei a andar. Meus passos ecoavam pelo salão, acompanhados apenas pelo som distante das folhas da grande árvore.
Minha mente começou a trabalhar com rapidez, quase em desespero.
Se a minha celebração sobreviveria… se a fé nos mortos lembrados sobreviveria… então talvez houvesse um caminho.
Uma ideia surgiu, tímida, quase absurda à primeira vista.
E se eles não precisassem desaparecer?
Parei no meio do salão.
Se minha fé poderia atravessar séculos, mudar de nome, se misturar a outras religiões e ainda assim continuar viva… então talvez eu pudesse levá-los comigo.
Não como deuses isolados.
Mas como parte de algo maior.
Um panteão.
Meu panteão.
A ideia fez meu coração acelerar. Não era um plano simples. Não era algo que pudesse ser feito às pressas. Convencer outros deuses a se ligarem a um panteão nascente, ainda jovem, exigiria cuidado, confiança e tempo.
Mas era uma possibilidade.
Uma chance real de salvá-los do esquecimento.
Respirei fundo.
Eu precisaria agir com cautela. Fortalecer ainda mais minha celebração entre os mortais. Garantir que, mesmo com a chegada dos colonizadores, o ato de lembrar os mortos não desaparecesse.
Depois, conversar com meus amigos. Um por um. Entender quem estaria disposto a caminhar comigo.
E, por fim, preparar o terreno para quando o mundo mudasse.
Uma sensação estranha percorreu meu corpo. Não era medo. Era urgência.
Eu não sabia quando os europeus chegariam. Podia ser em décadas. Podia ser amanhã. Para mim, o tempo era longo. Para os mortais, não.
E eram eles que pagariam o preço primeiro.
Voltei a me sentar no trono, agora mais séria, mais centrada. A alegria da festa ainda existia, mas havia sido substituída por determinação.
A Terra dos Lembrados estava apenas começando.
E eu precisava garantir que, quando o mundo mudasse… nós estivéssemos prontos.
Ao longe, sem que eu percebesse naquele instante, a influência da minha celebração continuava a crescer.
E, em lugares que eu ainda não alcançava, outros olhares começavam a se voltar para mim.
