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Chapter 18 - CAPÍTULO 18 - QUANDO OS DEUSES MORREM

Eu observava das sombras.

Não era um lugar. Não era um ponto fixo no mundo. Era um estado de existência — aquele espaço silencioso onde uma deusa pode estar presente sem ser vista, sentindo tudo, carregando tudo, e ainda assim incapaz de impedir o inevitável.

Primeiro, vieram os navios.

Vi-os ao longe, cortando o mar como lâminas lentas. Vi os homens desembarcando, cansados, curiosos, erguendo acampamentos improvisados na costa. Observei enquanto exploravam a terra, tocavam o solo, olhavam as florestas com olhos de posse.

No início, houve troca.

Vi os primeiros contatos. Gestos desconfiados. Presentes simples. Palavras que não se entendiam, mas tentavam se aproximar. Vi os estrangeiros caminharem pelas aldeias, observando os rituais, os templos, os símbolos.

Então, vi o olhar deles mudar.

Quando descobriram a riqueza da terra. Quando perceberam o ouro. Quando decidiram que aquelas crenças eram bárbaras, erradas, algo a ser apagado.

Foi aí que o conflito começou.

A primeira vila não caiu de imediato.

O sol ainda nem havia alcançado o alto do céu quando o fogo começou. As chamas subiram rápidas, famintas, engolindo palha, madeira, histórias. O som não foi apenas de gritos — foi de algo se partindo. De mundos sendo arrancados pela raiz.

Vi homens armados avançarem sem hesitação. Vi crianças correrem sem saber para onde. Vi mães abraçarem filhos como se pudessem protegê-los apenas com o corpo. Alguns tentaram resistir. Outros rezaram. Muitos chamaram por deuses que, naquele mesmo instante, já começavam a enfraquecer.

Meu peito apertou.

Era uma dor estranha. Antiga e nova ao mesmo tempo. Não era só tristeza. Era a sensação de assistir algo morrer sabendo exatamente como aquilo terminaria — e ainda assim não conseguir mudar o curso.

Eu sabia que isso viria.Eu sabia.

Passei séculos me preparando para esse momento. Construí fé, consolidei rituais, criei raízes profundas. Ainda assim, quando vi o primeiro templo ruir, nada do que eu havia planejado me protegeu do impacto.

Interferi.

Pouco.

O mínimo que me era permitido.

Às vezes, fazia os invasores se perderem na floresta. Caminhos se fechavam, trilhas se confundiam, a mata parecia girar em torno deles. Outras vezes, fazia a vegetação crescer rápido demais — raízes rompendo o solo, cipós se entrelaçando, folhas ocultando entradas, criando esconderijos improvisados para os nativos.

Não era salvação.

Era atraso.

E eu sabia disso.

Observei vilas inteiras serem apagadas. Vi esculturas sagradas quebradas e usadas como degraus. Vi altares virarem cinzas. Senti, um a um, os fios de fé se romperem — cada ruptura era como um puxão seco dentro de mim.

Não porque aquela fé fosse minha.Mas porque eram vidas.

Histórias que não seriam contadas novamente. Nomes que ninguém mais chamaria.

...

Foi então que decidi ir até meus amigos.

Quando cheguei ao templo de Huehueteotl, senti antes mesmo de ver: algo havia mudado. O ar estava pesado. O calor familiar do fogo parecia contido, como uma chama protegida do vento, frágil demais para se espalhar.

Eles já estavam reunidos.

Huehueteotl estava sentado como sempre, mas seus ombros pareciam mais curvados, mais antigos. Ao redor dele estavam aqueles que eu já não via apenas como aliados — eram amigos.

Centeotl mantinha o olhar baixo, como se estivesse contando algo invisível no chão.Xochipilli estava quieto demais, a alegria apagada nos olhos.Ometochtli bebia em silêncio, sem o riso fácil de antes.Chicomecoatl mantinha as mãos unidas, rígidas, como quem tenta segurar algo que escapa.

— Você chegou — disse Huehueteotl, antes mesmo que eu falasse. — Estávamos prestes a tentar te chamar.

Aproximei-me devagar.

— Por quê? — perguntei. — O que aconteceu?

Ele soltou uma risada curta. Não havia humor nela.

— Como se você já não soubesse.

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era carregado. Todos ali sentiam o mesmo. Todos haviam visto as chamas, os mortos, o avanço constante.

— A fé deles não é como as outras — disse Centeotl, por fim. — Ela não convive. Ela substitui.

— Onde passam, os deuses caem — murmurou Chicomecoatl.

Respirei fundo e falei.

Contei tudo o que vi. As vilas destruídas. As tentativas inúteis de proteção. A quantidade de mortos crescendo a cada estação. Falei do futuro que eu conhecia — não em detalhes, mas o suficiente para que entendessem que aquilo não era uma fase.

— Muitos de vocês irão desaparecer — disse com cuidado. — Seus nomes serão esquecidos. Seus templos soterrados. Mas… isso não precisa ser o fim.

Eles me olharam.

— Eu posso acolhê-los — continuei. — Criar um panteão. Um lar onde possam existir além da fé que está morrendo. Onde possam ser lembrados, mesmo que de outra forma.

O silêncio que veio depois não foi de dúvida.

Foi de decisão.

Huehueteotl falou primeiro.

— Nós nascemos da crença dos mortais — disse com calma. — E partiremos com eles.

— Não podemos abandoná-los — disse Xochipilli. — Mesmo que isso nos apague.

Senti meus olhos arderem.

— Vocês não precisam morrer — insisti. — Eu posso—

— Não — interrompeu Ometochtli, com um sorriso cansado. — Essa escolha… é nossa.

Um a um, confirmaram.

Eles ficariam.Protegeriam os mortais até o último vestígio de fé.

Saí dali com o coração partido.

...

Meses passaram. Depois anos. Sempre retornava. Conversava. Tentava outra abordagem. Mudava as palavras. Mudava o tom. Às vezes implorava em silêncio.

Nada mudava.

Então, começaram a cair.

Centeotl foi o primeiro.

Sua última aldeia foi destruída. As colheitas queimadas. A fome se espalhou. Quando o último campo foi abandonado, senti sua presença se desfazer — não em dor, mas em exaustão.

Depois, Chicomecoatl.

Sem grãos. Sem oferendas. Sem mãos que lembrassem da abundância. Ela desapareceu como um suspiro esquecido.

Xochipilli resistiu mais.

A alegria sempre encontra brechas. Mas quando os cantos foram proibidos e as festas silenciadas, até ele começou a se apagar.

Ometochtli riu até o fim.

Quando o prazer virou pecado, ele ainda riu. Até que a risada ecoou sozinha.

Por fim, restou apenas um.

Voltei ao templo de Huehueteotl.

Ou ao que sobrara dele.

As paredes estavam rachadas. O teto, desabado. O mato tomava as pedras. O lugar estava abandonado — mas não vazio.

Ele estava lá.

Sentado, olhando para o horizonte.

Sentei-me ao seu lado.

— Eu nasci quando a primeira chama foi acesa nesta terra — disse ele. — Quando alguém acreditou que o fogo era mais do que calor. Era vida.

Ficamos em silêncio por um tempo.

— Vi gerações nascerem e morrerem — continuou. — Vi pessoas se reunirem ao redor das chamas. Sempre estive com elas.

Olhou para mim.

— Continue fazendo o que você faz, Catrina.

Minha voz tremeu.

— Você foi meu primeiro amigo aqui.

Ele sorriu. Aquele sorriso sem dentes, sereno, tranquilo.

— Então não estarei indo embora de verdade.

Abraçamo-nos.

Chorei sem vergonha. Como deusa. Como alguém que havia perdido demais.

— Obrigada — sussurrei.

— Lembre-se deles — respondeu. — É isso que importa.

Seu corpo começou a se desfazer. Partículas douradas subiam como cinzas quentes.

Ele sorriu até desaparecer.

Fiquei sozinha.

Entre ruínas, cinzas e silêncio.

E ali, diante do fim de um mundo, fiz uma promessa silenciosa:ninguém mais seria esquecido enquanto eu existisse.

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