Ficool

Chapter 15 - CAPÍTULO 15 - FINALMENTE, UM LAR

Sentei-me novamente no trono, agora com uma sensação completamente diferente no peito. Não era peso. Não era medo. Tampouco aquela insegurança constante que me acompanhou desde que despertei como deusa. Era algo mais simples e, ao mesmo tempo, profundo.

Satisfação.

A Terra dos Lembrados se estendia diante de mim, viva. O palácio pulsava com uma energia suave, a árvore no centro espalhava luz e memória por cada corredor, e a cidade, ainda jovem, aguardava o futuro com paciência. As ruas coloridas estavam tranquilas, as luzes acesas, e algumas poucas almas caminhavam sem pressa, explorando aquele novo lar.

Pela primeira vez desde que deixei de ser Maria, eu não estava apenas existindo.

Eu tinha um lugar.

Foi então que um pensamento atravessou minha mente como um raio de sol.

— Eu tenho uma casa…

A frase saiu em voz baixa, quase incrédula. E, no instante seguinte, uma alegria inesperada me tomou por completo. Uma alegria quase infantil, difícil de conter. Meu sorriso se alargou sozinho, e senti uma vontade imediata, urgente, de compartilhar aquilo com alguém.

E eu sabia exatamente com quem.

Levantei-me do trono de um salto, o vestido ondulando ao redor de mim.

— Eu preciso contar isso — murmurei, rindo. — Preciso esfregar isso na cara dele.

Sem qualquer cerimônia, abri um portal ligando meu reino ao mundo dos vivos. A passagem se abriu com um brilho suave, e atravessei sem hesitar.

O templo de Huehueteotl surgiu diante de mim, quente e familiar como sempre. As chamas dançavam calmamente, iluminando as paredes de pedra esculpida. O cheiro de fumaça e brasas me envolveu como um abraço antigo.

— Huehueteotl! — chamei, entrando apressada no salão. — Velho! Onde você está?

Minha voz ecoou, carregada de animação demais para alguém que deveria manter uma postura mais… divina.

Dobrei um dos corredores e parei de repente.

Huehueteotl estava sentado no centro do salão, completamente concentrado, segurando uma espiga de milho com ambas as mãos. Seu semblante era sério, quase solene. Ele roía o milho com determinação… e nenhum sucesso.

Fiquei parada, observando.

Inclinei a cabeça de leve.

— …você está tentando morder o milho?

Ele levantou os olhos lentamente, como se tivesse sido interrompido em uma tarefa sagrada.

— Estou tentando vencer o milho — respondeu, com dignidade ofendida.

Mordi o lábio para não rir. Não funcionou.

Entrei no salão com passos longos e exageradamente confiantes, o queixo erguido, o nariz levemente empinado. Uma arrogância claramente fingida.

— Adivinha — disse, cruzando os braços. — Adivinha o que me aconteceu.

Huehueteotl franziu o cenho.

— Se for outra provocação…

— Adivinha quem tem uma casa agora — interrompi, sorrindo. — Quem tem um reino. Um trono. Um lugar só seu para mandar e desmandar.

Inclinei-me um pouco, com um brilho provocador nos olhos.

— Diferente de certas pessoas.

Ele me encarou por um segundo inteiro. Depois fez uma careta exagerada.

— Insolente.

E, no instante seguinte, começou a rir.

Eu ri junto.

Nossa gargalhada ecoou pelo templo, quente, confortável, quase íntima. Ele se levantou, aproximou-se e colocou a mão pesada sobre meu ombro.

— Parabéns — disse, com um tom sincero. — Você conseguiu de verdade.

Senti algo aquecer dentro de mim.

— Consegui — respondi, orgulhosa. — E é exatamente por isso que vim aqui.

Expliquei então minha ideia. Uma festa. Uma comemoração. Não apenas para marcar a criação do meu reino, mas para compartilhar aquilo com quem esteve ao meu lado desde o começo.

— Quero você lá — falei. — E quero nossos amigos também.

Ele arqueou a sobrancelha e sorriu.

— Então vou avisá-los.

...

Três dias depois, o templo estava diferente.

Presenças divinas começaram a surgir uma a uma, preenchendo o espaço com energia vibrante. Risadas, cumprimentos calorosos, comentários curiosos. Eram deuses que eu já conhecia, com quem havia compartilhado conversas, histórias e observações ao longo dos anos. Não eram apenas aliados de Huehueteotl.

Eram meus amigos também.

Fui recebida com abraços, elogios e provocações amistosas.

— Então é verdade!— Um reino próprio!— Finalmente!

Sorri para todos, agradecendo, sentindo-me estranhamente… pertencente.

Quando todos estavam reunidos, ergui a mão e abri o portal.

A passagem revelou a ponte de pétalas, o céu colorido, a cidade ao longe. Um silêncio breve tomou conta do grupo.

— Bem-vindos — disse. — À Terra dos Lembrados.

Um a um, atravessaram.

O espanto foi imediato.

— Por todos os fogos…— Isso é lindo.— Alegre. Vivo.

Huehueteotl caminhou devagar, observando tudo com atenção. Depois virou-se para mim com um olhar enviesado, claramente invejoso.

— Admito — disse. — Fiquei com inveja.

— Eu sei — respondi, satisfeita.

Caminhei com eles pela cidade, explicando cada detalhe. As ruas coloridas, as casas, as luzes que nunca se apagavam. Algumas almas já circulavam, ainda poucas, mas tranquilas. Quando alguém comentou sobre a quietude do lugar, expliquei:

— Ainda está no começo. Com o tempo… vai se encher de histórias.

Seguimos até o palácio.

A estrutura imponente arrancou novas exclamações. Ao entrarem no salão principal, conduzi todos até uma mesa enorme, já posta com comidas variadas.

— Sintam-se em casa — disse.

Huehueteotl sentou-se e, antes que pudesse pegar qualquer coisa, coloquei diante dele uma tigela com água.

— Aqui — falei, sorrindo. — A única coisa que você consegue mastigar.

O salão explodiu em gargalhadas.

— Traição! — ele reclamou, fingindo indignação.

Mas logo estava rindo junto.

A conversa fluiu. Histórias, risadas, comentários sobre mortais, reinos e o futuro. Por um momento, tudo pareceu simples.

Foi então que percebi.

Huehueteotl estava quieto.

Aproximei-me.

— O que foi? — perguntei.

Ele hesitou, depois murmurou:

— Agora que você tem uma casa… não vai mais me fazer companhia.

Olhei para ele por um segundo. Então sorri.

— Você acha mesmo que eu perderia a chance de te incomodar?

Ele levantou o olhar.

— Promete?

— Prometo — respondi, sem hesitar.

Ele riu, visivelmente aliviado.

A alegria voltou à mesa, mais forte do que antes.

E ali, cercada de amigos — meus amigos —, risadas e luz, compreendi algo essencial:

A Terra dos Lembrados era meu lar.

Mas eram os laços que eu construí que realmente davam vida a ele.

More Chapters