Duzentos anos.
Para os mortais, uma eternidade. Para mim, apenas o tempo necessário para que uma ideia criasse raízes profundas o bastante para sobreviver ao mundo.
Durante esses duzentos anos, eu observei.
Observei aldeias nascerem e desaparecerem. Observei crianças crescerem, envelhecerem e retornarem para mim. Observei histórias se transformarem em lendas e lendas em tradição. Mas, acima de tudo, observei a fé se mover — não como um exército, mas como um rio silencioso.
A celebração dos mortos não se espalhou com pressa.
Ela se espalhou com cuidado.
No começo, era restrita às tribos sob a jurisdição do panteão asteca. Ali, a presença de Huehueteotl e de seus aliados garantia algo raro entre deuses: tolerância. A tradição era vista como algo natural. Pequenas tochas, oferendas simples, flores coloridas. Nada que ameaçasse o equilíbrio.
Mas os mortais fazem o que sempre fizeram melhor.
Eles compartilham.
Um viajante levava consigo o costume. Um caçador o ensinava a outra aldeia. Uma família migrava e levava consigo o hábito de lembrar os mortos com alegria, não com medo.
Em pouco tempo, o ritual deixou de pertencer a um único povo.
Ele passou a pertencer aos vivos.
Cada região adaptava à sua maneira. Algumas cantavam. Outras dançavam. Algumas preferiam silêncio e contemplação. Mas todas mantinham o mesmo núcleo: lembrar os mortos pelo nome, celebrar quem foram, aceitar que a morte não era o fim.
E onde esse núcleo existia, eu era lembrada.
Meu poder cresceu.
Não de forma explosiva, mas constante. Reconhecimento após reconhecimento. Nome após nome. Cada altar improvisado, cada memória evocada, cada sonho onde um ente querido sorria novamente… tudo isso se acumulava dentro de mim.
Nesse tempo, alcancei um nível que jamais teria conseguido sozinha.
Tornei-me uma deusa de grande poder divino.
Ainda não uma força absoluta, ainda não uma rainha incontestável — mas forte o bastante para ser sentida além das fronteiras onde minha fé havia nascido.
E foi então que outros deuses começaram a estranhar.
Primeiro vieram os sussurros.
Divindades de outros panteões americanos perceberam algo diferente em seus territórios. Não era uma fé que os atacava diretamente. Não havia templos erguidos contra eles. Não havia sacerdotes pregando destruição.
Mas havia algo se infiltrando.
Uma maneira diferente de lidar com a morte.
Esses deuses começaram a investigar.
Rastrearam a origem dos rituais. Observaram os costumes. Seguiram as histórias de aldeia em aldeia, até que todas as trilhas levavam ao mesmo lugar: o território do panteão asteca.
Então fizeram o que deuses sempre fazem quando algo foge ao controle.
Foram perguntar.
Os deuses do panteão asteca não mentiram.
Disseram que aquela fé não havia nascido ali, mas que havia sido acolhida. Disseram o meu nome. Disseram que eu era uma deusa da morte — mas não uma deusa fria, nem cruel. Disseram que eu celebrava a memória, que ensinava os mortais a abraçar a passagem com alegria.
E, por fim, disseram algo que mudou tudo:
Que eu tinha uma ligação direta com a própria Morte.
Isso bastou.
O medo se espalhou mais rápido do que qualquer ritual.
Para muitos deuses, a Morte não é apenas um conceito. É autoridade. É algo que nenhum deles ousa desafiar. Saber que uma nova deusa dos mortos havia sido reconhecida por ela… isso era perigoso demais.
Alguns ficaram furiosos.
Outros curiosos.
Mas a maioria escolheu o caminho mais comum entre divindades que temem perder o que têm: fingir que nada estava acontecendo.
Ignoraram-me.
Fecharam seus territórios.
Proibiram que seus seguidores adotassem a tradição — e falharam.
Porque a fé que eu espalhava não exigia exclusividade. Ela não pedia que os mortais abandonassem seus deuses. Apenas pedia que lembrassem de quem amaram.
E isso… nenhum deus conseguiu arrancar do coração humano.
Enquanto alguns panteões se retraíam, outros observavam à distância. E eu seguia, paciente, deixando que o tempo fizesse o que sempre faz melhor.
Na Terra dos Lembrados, os efeitos desses duzentos anos eram visíveis.
A cidade cresceu. As ruas tornaram-se mais largas. Novas construções surgiram, cada uma moldada pelo desejo das almas que chegavam. Havia bairros inteiros dedicados à música, à memória, à celebração.
O reino não era estático.
Ele reagia à fé.
E eu o observava agora, parada na sacada do meu palácio.
Abaixo de mim, a cidade pulsava. Lanternas flutuavam pelo ar como estrelas domesticadas. Risos ecoavam entre as casas coloridas. O som de instrumentos improvisados misturava-se ao vento.
Era quase absurdo pensar que aquele era um reino dos mortos.
Talvez fosse exatamente por isso que funcionava.
Apoiei as mãos no parapeito e fechei os olhos por um momento, absorvendo tudo. A sensação de pertencimento, de dever cumprido, de algo construído com cuidado.
Foi quando senti.
Um impacto súbito, como um sino tocado dentro do meu peito.
Abri os olhos imediatamente.
Meu coração acelerou, não por medo, mas por reconhecimento. Aquela sensação não era nova — apenas esquecida. Algo antigo, inevitável, finalmente alcançando o presente.
Expandi meus sentidos divinos.
Agora, eles atravessavam oceanos.
Vi o mar se abrir diante de uma embarcação enorme, diferente de tudo que eu já havia visto. Um navio pesado, feito para dominar as águas. Velas infladas pelo vento, mastros altos, madeira escura marcada por símbolos estranhos.
Vi homens.
Homens armados.
Homens que não pertenciam àquela terra.
O navio aproximou-se da costa. Âncoras foram lançadas. Botes tocaram a areia. E então, os primeiros passos foram dados.
Espanhóis.
Senti o peso daquele momento descer sobre mim como um manto.
Duzentos anos de preparação. Duzentos anos de crescimento silencioso. Duzentos anos sabendo que isso aconteceria… e ainda assim, quando o instante chegou, ele doeu.
Respirei fundo.
Lá embaixo, na Terra dos Lembrados, a festa continuava. As almas dançavam, riam, celebravam. Elas não sabiam — e não precisavam saber. Aquele reino existia justamente para que o medo não fosse eterno.
Mas eu sabia.
Sabia que o mundo dos vivos estava prestes a mudar para sempre. Sabia que deuses seriam esquecidos. Sabia que culturas seriam esmagadas e remodeladas à força.
E sabia que muitos dos meus amigos não sobreviveriam.
Fechei os olhos por um instante mais longo.
Quando os abri novamente, não havia lágrimas.
Apenas determinação.
— Finalmente começou — murmurei, não com tristeza, mas com aceitação.
A história avançava, como sempre avançou.
E, desta vez, eu não era apenas uma espectadora.
Eu estava pronta.
