Quarenta anos depois.
O tempo passou de maneira curiosa para mim. Para os mortais, foram décadas inteiras marcadas por mudanças visíveis: cabelos embranqueceram, vozes enfraqueceram, crianças cresceram e anciãos partiram. Para mim, foi um fluxo constante, silencioso, quase gentil. Um período de observação, aprendizado e amadurecimento.
Durante esses quarenta anos, minha fé se espalhou como nunca antes. Com a permissão dos deuses aliados de Huehueteotl, minhas tradições atravessaram territórios com rapidez surpreendente. Tribos que jamais haviam tido contato direto entre si passaram a compartilhar práticas semelhantes: pequenas tochas acesas ao entardecer, flores deixadas com cuidado, frutas e alimentos oferecidos não como lamento, mas como lembrança.
A morte deixou de ser apenas perda. Tornou-se memória viva.
Essa expansão não aconteceu apenas entre mortais. Ao longo dos anos, aproximei-me cada vez mais dos amigos de Huehueteotl. Compartilhávamos histórias, observávamos os povos juntos, ríamos de pequenos acontecimentos cotidianos. Com o tempo, deixaram de ser apenas aliados circunstanciais — tornaram-se meus amigos também. Eu era aceita à mesa deles, ouvida com curiosidade e, em alguns casos, com admiração.
A presença da própria Morte naquele banquete ecoou entre os deuses. Embora poucos comentassem abertamente, percebi mudanças sutis. Alguns deuses, mesmo fora das jurisdições amigas, passaram a observar meus rituais com mais atenção. Pequenos focos de crença surgiram em territórios distantes, não o suficiente para causar conflitos, mas o bastante para que meu nome atravessasse fronteiras divinas.
Meu poder cresceu junto com isso.
Já não era a deusa frágil que vagava sem rumo pelas florestas. Minha essência estava mais densa, mais estável. Eu havia avançado, tornando-me uma divindade de grande poder divino. Ainda assim, algo permanecia incompleto.
O meu reino existia… mas permanecia adormecido.
Eu o sentia como uma presença distante, silenciosa. Um espaço que aguardava algo. Durante todos esses trinta anos, ele não respondeu, não se abriu, não se moldou. Não importava quantos rituais fossem feitos ou quantas almas partissem em paz. Faltava algo que eu ainda não compreendia completamente.
Observei aldeias mudarem. Rostos conhecidos envelhecerem. Tradições se adaptarem ao tempo. Foi então que senti.
Um aperto suave no peito. Não era dor, nem medo. Era reconhecimento. Um laço antigo se manifestando com força inesperada.
Amaru.
Meu primeiro crente. O primeiro a me reconhecer. Aquele que me aceitou não por temor, mas por compreensão.
Ele estava chegando ao fim.
Segui o chamado sem hesitar. Cruzei a aldeia como um sopro invisível e entrei na cabana simples onde ele repousava. Amaru estava deitado, o corpo marcado pelo tempo, rodeado por filhos e netos. Sua voz, embora fraca, ainda carregava calor enquanto contava histórias de sua juventude — e, inevitavelmente, falava de mim.
Lembrei-me do jovem caçador que um dia sentiu minha presença na floresta. O tempo havia passado rápido demais.
Então seus olhos se moveram.
Ele me sentiu.
Virou o rosto na minha direção e começou a falar, como se conversasse com alguém invisível aos outros.
— Você veio… — murmurou, com um sorriso tranquilo.
Os netos trocaram olhares apreensivos. Para eles, era apenas delírio.
Para ele, era despedida.
— Obrigado — continuou. — Por me ensinar a não ter medo. Por me mostrar que a morte também pode ser acolhida.
Decidi me mostrar.
Apenas para ele.
Seus olhos me viram, e não houve espanto. Apenas paz. Aproximei-me e coloquei a mão em sua cabeça, fazendo um carinho lento, familiar.
— Você viveu bem — sussurrei.
Cantei para ele. Uma canção sem palavras, feita apenas de sentimento. Sua respiração se acalmou, os olhos se fecharam pouco a pouco.
E Amaru partiu.
Observei tudo. O choro contido dos filhos. O ritual feito com cuidado. As flores, as tochas, a terra cobrindo o corpo daquele que nunca me esqueceu. Quando a chuva começou a cair, senti algo diferente.
Não era um chamado externo.
Era uma ressonância.
O mundo se dissolveu ao meu redor.
Quando abri os olhos, estava em outro lugar.
Um céu escuro se estendia acima de mim. O chão era de areia negra, silenciosa, como um deserto à espera de forma. Meu reino.
Perto de mim, vi Amaru.
Sua alma repousava na areia, tranquila, os olhos fechados. Não havia medo. Não havia confusão. Apenas aceitação serena.
Aproximei-me e sorri.
— Mesmo depois da morte… você ainda me ajuda.
Foi então que compreendi.
Não porque alguém tivesse me explicado antes. Não porque isso tivesse sido ensinado.
Eu senti.
Minha divindade e aquele reino ressoaram juntas, como duas notas que finalmente encontraram a mesma frequência. Não houve imposição, nem domínio. O reino não se moldou à força — ele respondeu.
Amaru foi o primeiro.
Em quarenta anos, muitos morreram em paz. Alguns aceitaram o fim. Mas apenas ele caminhou até a morte de braços abertos, com alegria verdadeira, como quem reencontra uma velha amiga.
Foi isso que abriu a porta.
O reino não despertou pela morte em si, mas pelo reconhecimento.
Agora eu podia senti-lo por completo.
