Ficool

Chapter 12 - CAPÍTULO 12 - O PESO DO RECONHECIMENTO

Quando voltei da sacada, o salão já não era o mesmo.

Todos os olhares recaíram sobre mim.

Não havia hostilidade neles, tampouco reverência explícita. Era curiosidade crua, quase palpável. A Morte havia atravessado aquele salão por minha causa, falado comigo diante de todos, caminhado ao meu lado. Isso, por si só, já era o bastante para inquietar até mesmo deuses antigos.

Caminhei de volta entre as mesas, sentindo o silêncio se reorganizar atrás de mim. Aos poucos, os murmúrios retornaram, baixos, contidos, como se ninguém quisesse ser o primeiro a comentar em voz alta o que todos tinham visto.

O deus da morte do panteão asteca ainda estava ali, parado próximo ao seu grupo. Quando nossos olhares se cruzaram novamente, não houve palavras. Nenhuma acusação, nenhuma ironia. Apenas um olhar profundo, longo, avaliador.

Então ele assentiu uma única vez.

Foi um gesto pequeno, quase imperceptível, mas carregado de significado. Um reconhecimento silencioso. Em seguida, virou-se e retornou ao seu lugar, como se aquele assunto estivesse encerrado — pelo menos por enquanto.

Só então respirei com mais calma.

Voltei para onde Huehueteotl e seus amigos estavam sentados. Antes mesmo que eu pudesse me acomodar, senti uma mão enrugada, quente, puxando-me discretamente para o lado.

— Então? — perguntou ele, com os olhos brilhando de curiosidade. — O que a Morte disse a você?

Havia genuíno interesse em sua voz. Não desconfiança, não medo. Apenas a curiosidade de alguém que sabia estar diante de algo raro.

— Nada do que os outros imaginam — respondi com um meio sorriso. — Ela só veio me conhecer. Conversar comigo.

Huehueteotl arregalou levemente os olhos, depois soltou uma risada baixa.

— Só isso — repetiu, como se fosse a coisa mais absurda do mundo. — “Só” conversar com a Morte.

Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Você teve muita sorte, Catrina. Muitos deuses da morte jamais foram reconhecidos diretamente por ela. O fato de a chefona ter descido até aqui… por você… — ele assobiou baixo. — Seu status acabou de subir, queira você ou não.

Olhei ao redor. Alguns deuses ainda nos observavam, tentando parecer desinteressados. Outros cochichavam. Alguns poucos desviavam o olhar, como se a simples possibilidade de atenção direta da Morte fosse desconfortável demais.

— Não era minha intenção causar isso — murmurei.

— Nunca é — respondeu Huehueteotl com naturalidade. — E ainda assim acontece.

A festa continuou.

Com o passar das horas — ou dias, ali o tempo era mais um acordo tácito do que uma medida exata —, outros deuses começaram a se aproximar da mesa. Cumprimentos formais, comentários curiosos, perguntas cuidadosas. Alguns elogiavam minha presença, outros falavam da tradição que começava a se espalhar entre os mortais, sempre com aquele tom ambíguo entre aprovação e cautela.

Conversei com os amigos de Huehueteotl com mais tranquilidade agora. Centeotl falava com entusiasmo sobre colheitas fartas e a alegria dos povos quando a terra respondia ao cuidado. Chicomecoatl escutava com atenção serena, ponderando sobre nutrição e equilíbrio. Ometochtli ria alto, contando histórias de festas que duraram dias inteiros. Xochipilli, por sua vez, falava de música, flores e do prazer simples de existir.

Aos poucos, fui me sentindo menos deslocada.

Ainda assim, em um momento de silêncio entre conversas, meu olhar se perdeu pelo salão.

Aquela pirâmide magnífica, aquelas divindades reunidas, a força simbólica daquele encontro… tudo parecia sólido demais. Antigo demais. E, ainda assim, eu sabia.

Quando os colonizadores chegassem, tudo aquilo ruiria.

Não de uma vez. Não com um único golpe. Mas aos poucos, corroído por novos símbolos, novas crenças, novos nomes impostos à força. Pensei nisso em silêncio, guardando esse pressentimento comigo. Ainda não era o momento de agir. Ainda não.

A festa seguiu.

Quando enfim começou a se dispersar, já era noite. Uma noite profunda, estrelada, como só os céus antigos sabiam ser. Os deuses se despediam uns dos outros, portais se abrindo em diferentes direções, risos ecoando, promessas vagas de futuros encontros sendo trocadas.

Despedi-me dos amigos de Huehueteotl com respeito sincero. Alguns apertos de mão, alguns acenos, algumas palavras de boa sorte. Não promessas eternas — apenas reconhecimento.

Huehueteotl abriu o portal de pedra de volta para seu templo, as chamas rituais tremulando suavemente ao redor da moldura entalhada. Atravessamos juntos.

Do outro lado, o silêncio era reconfortante.

Soltei um longo suspiro assim que o portal se fechou atrás de nós.

— Já se cansou? — perguntou ele, rindo.

— Muito — respondi, sem negar. — Conhecer a própria Morte cara a cara… foi mais pressão do que eu esperava.

Huehueteotl gargalhou, aquela risada rouca, sem dentes, cheia de calor.

— Você se saiu melhor do que imagina.

Saímos do templo e nos sentamos do lado de fora, lado a lado, sem cerimônia. O céu se estendia acima de nós, um manto escuro salpicado de estrelas antigas. Nenhum de nós falou por um tempo.

Não era um silêncio desconfortável.

Era o tipo de silêncio que só existe entre aqueles que não precisam provar nada um ao outro.

Ali, observando o céu, senti o peso do que havia acontecido. A Morte me reconhecera. Os deuses haviam me visto. Meu caminho estava se tornando mais visível — e, com isso, mais perigoso.

Mas, por ora, havia paz.

E isso bastava.

Ficamos assim por um tempo, apenas observando o céu. As estrelas pareciam mais próximas ali, como se pudessem ser tocadas. O silêncio entre nós não era vazio; era cheio de pensamentos não ditos.

Foi eu quem quebrou primeiro.

— Eu consegui sentir — murmurei.

Huehueteotl virou lentamente o rosto na minha direção.

— Sentir o quê?

Levei o olhar de volta ao céu, escolhendo bem as palavras.

— O meu reino.

Ele não se moveu. Não falou. Apenas escutou.

— Agora que a Morte criou aquela conexão… — continuei — eu entendo. Não posso entrar ainda. Mas sei o que precisa acontecer.

O deus do fogo apoiou os cotovelos nos joelhos, atento.

— Diferente dos outros deuses da morte — disse — eu não governo por força. Nem por medo. Nem por domínio. O meu reino… ele responde ao reconhecimento.

Respirei fundo.

— A porta só vai se abrir quando a primeira alma mortal morrer acreditando em mim. Não apenas sabendo que eu existo, mas aceitando a morte sem medo. Sendo lembrada. Celebrada.

Huehueteotl permaneceu em silêncio por um longo momento. As chamas distantes do templo refletiam em seus olhos antigos.

— Então o seu reino não nasce da morte — disse ele, pensativo. — Nasce da forma como os vivos a encaram.

Assenti.

— Exatamente. Enquanto os outros reinos se impõem… o meu precisa ser convidado.

Ele soltou um pequeno riso, baixo, quase orgulhoso.

— Isso explica por que ele ainda espera — comentou. — E por que você ainda vaga entre vilas e florestas.

Fechei os olhos por um instante.

— Agora não há mais nada a fazer além de aguardar.

Huehueteotl inclinou levemente a cabeça, concordando.

— Esperar, então — disse ele. — E observar.

Voltamos a olhar para o céu. As estrelas continuavam ali, indiferentes ao tempo, às decisões e aos deuses.

Em algum lugar, eu sabia, uma vida seguia seu curso.

E quando chegasse o fim…

O meu reino finalmente abriria os olhos.

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