Ficool

Chapter 11 - CAPÍTULO 11 - AQUELA QUE COMPREENDE

A conversa ao meu redor segue viva.

Huehueteotl era baixo de algo que Ometochtli dizia, enquanto Centeotl e Chicomecoatl discutiam colheitas e abundância. Xochipilli falou com entusiasmo exagerado, como se aquela reunião fosse apenas mais uma celebração. Era um círculo barulhento, quente, quase confortável demais para um salão repleto de deuses.

Talvez por isso meus sentidos tenham começado a se expandir.

Observei o salão com mais atenção.

Em posições elevadas, afastadas do burburinho, estavam os deuses mais poderosos do panteão. Suas presenças eram diferentes. Mais densas. Mais pesados. Não preciso falar alto para serem notados. O simples fato de existirem ali já impunha respeito.

Enquanto meus olhos percorriam aquele grupo, algo me tocou.

Não foi visto. Nem som.

Foi uma sensação .

Uma profundidade estranha, profunda, como duas ideias que compartilham a mesma raiz. Segui instintivamente conexão essa invisível… até que meus olhos encontraram os dele.

O deus da morte do panteão asteca.

No mesmo instante, senti o peso daquela ligação. Não era hostilidade. Era reconhecimento. Como se dois conceitos semelhantes acabaram de descobrir a existência do outro.

Ele virou o rosto lentamente.

E me encarou.

O impacto foi imediato.

Não sinto medo comum, mas a sensação de estar sendo medida em um nível muito mais profundo. Desviei o olhar por reflexo, tentando manter a compostura — e, quando fiz isso, percebi que o salão havia começado a silenciar.

Passos ecoaram.

Lentos. Firmas.

Quando ergui os olhos novamente, ele já caminhava em minha direção. As conversas cessaram por completa. O clima leve do banquete se dissolveu como fumaça. Deuses que riam segundos antes agora observavam em silêncio absoluto.

Ele parou à minha frente.

— Então… — disse, com a voz fria e cortante — você é a deusa sobre a qual ouvi rumores.

Inclinei levemente a cabeça, atenta.

— Rumores de que você está ensinando os mortais a celebrar a morte.

A palavra soou quase como uma afronta em sua boca.

— Sou — respondeu, firme.

— Explique, então — contínuo — por que insiste em distorcer aquilo que deve ser implacável. A morte não é confortável. Não é acolhedor. Ela encerra.

O silêncio era absoluto.

Respirei fundo antes de responder.

— A morte encerra a vida — concordei —, mas não encerra o significado. O que foi vivido permanece. Na memória, sem amor, sem impacto deixou nos outros.

Ele preencheu os olhos.

— Palavras fracassadas.

— Não — retruquei. — São palavras humanas. O medo não ensina respeito. Apenas paralisado. Quando os vivos lembram dos mortos com carinho, a morte deixa de ser um vazio e passa a ser parte do ciclo.

Alguns murmúrios resultantes.

— Celebrar os mortos — continuei — não diminua a morte. Dá sentido à vida que continua.

O deus da morte soltou um som seco, quase um riso sem humor.

— Idealismo perigoso.

Antes que ele pudesse dizer mais, o ar do salão mudou .

Um arrepio coletivo percorreu todas as presenças divinas.

Palmas ecoaram.

Lentas. Ritmadas.

Uma… duas… três.

O medo se instalou.

Quando todos se viraram, o salão congelou .

Ela estava ali.

Uma Morte.

Não como um título. Não como uma metáfora. Mas como o conceito encarnado .

Deuses que antes discutiam agora se mantinham imóveis. Alguns desviaram o olhar. Outros curvaram levemente a cabeça. Até os mais poderosos sentiram o peso daquela presença.

Ela caminhava calmamente entre eles. Pele branca demais para parecer viva, mas estranhamente acolhedora. Cabelos negros soltos. Roupas simples, quase comuns. E um sorriso.

Humano.

— Peço desculpas por invadir a festa — disse ela, com leveza. — Não fui convidada.

Olhou em volta, apreciando o salão, as tochas, os adornos, o banquete.

— Mas devo admitir… é belíssimo. Um trabalho admirável.

Alguns deuses engoliram em seco.

Ela voltou o olhar para mim.

— Ainda assim, eu preciso conhecer alguém.

Seus olhos encontraram os meus.

— E, pelo que… — acrescentou — a viagem já valeu cada passo.

Ela parou ao meu lado, ignorando completamente a tensão que tomava o salão.

— Faz eras que não ouviu ninguém falar da morte desse jeito. Nem deuses. Nem mortais.

Virou-se então para o deus asteca da morte, com um sorriso leve.

— Viu só? — comentou. — Não é uma heresia. É compreensão.

Ele baixou o olhar. Silencioso.

— Venha — disse ela, voltando-se para mim. — Vamos conversar em um lugar mais tranquilo.

Enquanto segue até a sacada, senti o salão lentamente recuperando o ar — mas o medo permanente. Não por mim.

Por ela.

Ali, sob o céu aberto, a Morte apoiou os braços na pedra e suspirou, como alguém que finalmente encontra um momento de descanso.

— Você não imagina como é cansativo — disse. — Os vivos passam a vida inteira fugindo de mim. Eu odiando. Me culpando por tudo o que perdem.

Olho para o horizonte.

— E, no fim, sou eu quem os recebe quando ninguém mais pode.

Ficou em silêncio por um instante.

— É isolado.

Aquelas palavras não vieram como lamento. Vieram como confissão.

— Quando senti você surgir — contínuo —, não foi como um rompimento… mas como um ajuste.

— Um ajuste? — eles se encaixaram.

— Um conceito novo — explicado. — A morte sempre existe. Mas a forma como é aprendida muda. E você nasceu muito próximo do que ela realmente é.

A Morte apresentou alguns segundos em silêncio, observando-me com atenção. Então, seu sorriso ganhou um tom diferente — menos casual, mais decidido.

— Eu gostaria de lhe dar um presente.

Inclinei levemente a cabeça, surpresa.

— Um presente?

– Sim. — Ela transparente a mão, a palma externa para cima. — Já está na hora.

A energia ao redor dela mudou. Não ficou pesado, nem opressivo. Ficou profundo. Na sua mão, algo começou a se formar: uma pequena esfera de luz suave, pulsante, como se respirasse. Não era ofuscante. Era quente. Reconfortante.

— Você sempre soube que tinha um reino — continuou a Morte, enquanto a esfera girava lentamente entre seus dedos. — Sempre sinto isso. Mas saber não é o mesmo que alcançar.

Ela se um passo.

— Considere isto… uma ponte.

Sem brusquidão, sem solenidade excessiva, ela empurrou a esfera contra o meu peito.

O impacto não doeu.

Foi como se algo se encaixasse.

Meu corpo inteiro reagiu. Um fluxo percorreu minha consciência, e, por um instante, eu senti. Não vi o reino com claro, mas percebi sua existência — vasta, silenciosa, esperando. Um lugar que me reconheça. Que respondia a mim.

A conexão se firmou como um fio luminoso, distante, mas inegável.

Ofeguei levemente, dando uma mão no peito.

— Agora você pode senti-lo — disse a Morte, satisfeito. — Ainda não pode entrar. Ainda não pode moldá-lo. Mas ele sabe quem você é.

Ela é divertida.

— E, sinceramente? Já estava passando da hora. Uma deusa dos mortos vagando por florestas e vilas… sem casa, sem teto…

Balancei a cabeça, sentindo o rosto esquentar de vergonha.

— …não é exatamente uma imagem respeitável — completou ela, rindo. — Considere isso o começo do seu lar.

Deu alguns passos para trás.

— Eu ficaria mais — disse, voltando ao tom leve —, mas o trabalho nunca acaba. Sempre há alguém partindo. Sempre há alguém precisando ser guiado.

Olhou-me uma última vez.

— Estou feliz por você, Catrina. Na verdade.

Ergueu a mão em despedida.

— Breve.

E então desapareceu.

Fiquei ali, sentindo aquela nova ligação pulsar suavemente dentro de mim.

Meu reino ainda estava distante.

Mas agora…ele existia para mim.

More Chapters