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Chapter 10 - CAPÍTULO 10 - QUANDO OS DEUSES SE REÚNEM

Dois dias depois.

Cheguei ao templo de Huehueteotl pouco antes do sol alcançar o ponto mais alto do céu. O ar estava diferente. Não apenas mais quente, mas mais denso, carregado de expectativa. Algo importante estava prestes a acontecer, e até as chamas das tochas pareciam se mover com mais atenção do que o normal.

Foi então que o vi.

Por um instante, cheguei a duvidar se era mesmo Huehueteotl.

O deus que eu conhecia costumava vestir-se com simplicidade quase absurda para alguém tão antigo. Túnicas gastas, sem adornos, como se não tivesse qualquer interesse em aparência. Agora, porém, ele estava… diferente.

Adornos de ouro envolviam seus braços e tornozelos. Braceletes espessos refletiam a luz das chamas, e uma túnica vermelha cobria seu corpo enrugado, o tecido parecendo vivo, como se pequenas línguas de fogo se movessem suavemente sobre ele. Sua postura também havia mudado. Continuava curvado pela idade, mas havia ali uma imponência silenciosa, uma autoridade que não precisava ser anunciada.

Fiquei alguns segundos observando antes de falar.

— Então… — comentei, cruzando os braços — era isso que você escondia debaixo daquelas túnicas simples?

Huehueteotl virou-se lentamente, arqueou uma sobrancelha e soltou uma risada rouca.

— O que foi? — perguntou. — Não posso me arrumar de vez em quando?

— Pode — respondi, sorrindo. — Só não esperava que o “deus velho” resolvesse aparecer como se fosse o próprio fogo em forma de realeza.

Ele resmungou algo incompreensível, ajeitou um dos braceletes e caminhou até mim.

— Reuniões exigem aparência adequada — disse. — Se eu aparecer do jeito que costumo andar por aí, metade deles acharia que eu enlouqueci de vez.

— E a outra metade? — provoquei.

— Essa metade já acha isso há séculos.

Ri, e por um momento o nervosismo que eu vinha sentindo diminuiu. Aquela leveza entre nós ajudava mais do que eu gostaria de admitir.

Caminhamos juntos pelo templo enquanto o sol subia lentamente. O som distante de tambores ecoava pelo ar, ritmado e solene.

— Então — perguntei — o que exatamente eu devo esperar dessa reunião?

Huehueteotl suspirou.

— Conversas — começou. — Muitas conversas. Alianças sendo reforçadas, outras sendo quebradas. Deuses disputando influência, territórios, reconhecimento. Intrigas silenciosas. Algumas bem barulhentas.

— Parece… agradável — comentei, irônica.

— Não é — respondeu, direto. — Mas é necessário. Um panteão não se mantém unido sem isso.

Ele parou por um instante, olhou para mim com mais seriedade.

— Você será observada. Avaliada. Alguns vão te achar interessante. Outros vão desconfiar. E alguns poucos podem te ver como uma oportunidade.

Assenti lentamente.

— E você?

Ele sorriu de lado.

— Eu estarei ao seu lado. Como prometido.

O sol alcançou o ponto mais alto do céu.

Huehueteotl ergueu uma das mãos enrugadas, e o ar à nossa frente começou a se moldar. Não houve explosão de energia nem clarões cegantes. A própria realidade pareceu se dobrar, como pedra sendo esculpida por mãos invisíveis.

Uma moldura de porta surgiu diante de nós.

Feita de pedra maciça, antiga, coberta por entalhes astecas detalhados. Símbolos do fogo, do sol, da terra e do ciclo da vida estavam gravados em sua superfície. Pequenas chamas ardiam ao longo da moldura, não queimando a pedra, apenas iluminando os símbolos como se fossem parte dela.

Do outro lado, era possível ver o interior de um espaço vasto.

— Pronta? — perguntou Huehueteotl.

Respirei fundo.

— O mais pronta que posso estar.

Atravessamos o portal.

O impacto visual foi imediato.

Diante de nós erguia-se um enorme palácio em forma de pirâmide, muito maior do que qualquer construção mortal. Degraus largos subiam até alturas impressionantes, e cada nível era decorado com relevos detalhados, contando histórias antigas do panteão. O céu acima parecia mais próximo, e o ar vibrava com poder divino concentrado.

Entramos pelo salão principal.

Era imenso.

Colunas de pedra sustentavam o teto alto, cada uma esculpida com rostos de deuses antigos. Tochas e chamas sagradas iluminavam o espaço, refletindo em adornos dourados, armas cerimoniais e mantos divinos. O salão estava repleto de presenças.

Deuses.

Muitos deles.

Eles não estavam organizados em fileiras ou tronos únicos. Estavam reunidos em grupos, conversando entre si. Alguns riam. Outros discutiam em tons baixos. Os mais poderosos ocupavam posições elevadas, cercados por seus círculos, enquanto deuses menores se espalhavam pelas laterais, observando tudo com atenção.

Antes que pudéssemos avançar, uma figura se colocou à frente do portal.

Um deus menor, trajado de forma cerimonial, segurando um bastão adornado com símbolos rituais. Sua postura era rígida, respeitosa. Ele olhou primeiro para Huehueteotl, depois voltou o olhar para mim, avaliando-me por um breve instante, como quem mede o peso de uma presença antes de permitir que ela seja nomeada diante de todos.

— Antes do anúncio — disse ele, com voz firme — preciso saber.

Seus olhos pousaram diretamente em mim.

— Qual é o seu nome… e qual divindade representa?

Senti o peso da formalidade naquele gesto. Dei um passo à frente e respondi com calma, sem elevar a voz, mas sem hesitar.

— Meu nome é Catrina. Sou a deusa dos mortos, guardiã da passagem e da memória daqueles que partiram.

O deus menor assentiu lentamente, como se registrasse cada palavra com cuidado. Então ergueu o bastão.

— Anuncio a chegada de Huehueteotl, deus do fogo, antigo entre os antigos!

Alguns olhares se voltaram imediatamente para nós.

— E sua convidada — continuou, a voz ressoando pelo salão — Catrina, deusa dos mortos, guardiã da memória e da passagem!

Por um instante, o barulho do salão pareceu diminuir, como se o anúncio tivesse criado uma pequena onda de atenção. Senti os olhares recaírem sobre mim — curiosos, avaliadores, alguns cautelosos. E, no meio disso, ouvi murmúrios que vinham de diferentes grupos.

— Ela é… bela.— Uma deusa dos mortos com esse tipo de presença…?— Estranho. Mas… não é desagradável.

Não era hostilidade imediata. Era curiosidade. E curiosidade, naquele lugar, já era um tipo de teste.

Caminhei ao lado de Huehueteotl, mantendo a postura firme. Não baixei a cabeça, mas também não me impus. Apenas existi ali, com dignidade, enquanto o salão lentamente retomava sua respiração normal.

Foi então que uma voz chamou, atravessando a distância com familiaridade suficiente para cortar a formalidade do ambiente.

— Huehueteotl!

Ele ergueu o rosto enrugado na direção do chamado, e eu vi algo raro nele: um tipo de satisfação simples, quase humana.

— Lá estão eles — murmurou, mais para si do que para mim.

Seguimos na direção do grupo.

E quando nos aproximamos, percebi por que o clima ao redor daquele pequeno círculo era diferente. Não havia aquela tensão política pesada, nem a rigidez dos que tentavam parecer superiores. Ali, as presenças pareciam… vivas. Quase calorosas, cada uma à sua maneira.

Huehueteotl ergueu uma mão e falou com a voz mais alta do que usava comigo, mas ainda carregando aquele tom de quem realmente conhece quem está chamando.

— Vocês estão inteiros. Isso já é uma vitória.

Uma risada respondeu — e, antes que qualquer outra coisa acontecesse, Huehueteotl deu um passo lateral, fazendo um gesto discreto para mim.

— Venha. Quero que conheça meus amigos.

Ele apontou primeiro para uma presença que parecia trazer consigo o cheiro de campos e alimento.

— Este é Centeotl — disse Huehueteotl. — Deus do milho e da colheita. Onde ele pisa, o povo tem o que comer.

Centeotl me olhou com curiosidade tranquila, como quem pesa uma novidade sem pressa.

— Uma deusa dos mortos… — comentou, com voz baixa. — E, ainda assim, você não traz fome. Isso é… incomum.

Huehueteotl soltou um som divertido, como se concordasse com a observação.

Em seguida, ele apontou para outra divindade, cuja presença parecia vibrar com cor, perfume e música — mesmo que não houvesse música tocando naquele momento.

— Xochipilli — apresentou. — Deus das flores, da arte, da música e do prazer.

O olhar de Xochipilli percorreu minha aparência com descarada apreciação, sem parecer ofensivo — apenas honesto, quase teatral.

— Ah… — disse ele, como se saboreasse a palavra. — Finalmente algo belo o suficiente para quebrar a monotonia dessas reuniões.

Huehueteotl pigarreou, como se isso fosse um exagero, mas não negou.

Depois, ele apontou para uma presença que parecia carregar um riso pronto, como se estivesse à beira de fazer uma piada mesmo numa sala cheia de deuses poderosos.

— Ometochtli — disse Huehueteotl. — Deus do pulque e da festividade. Se você ouvir gargalhadas vindo do nada, provavelmente é culpa dele.

Ometochtli sorriu para mim como se já fôssemos conhecidos.

— Deusa dos mortos? — perguntou, com um brilho divertido nos olhos. — Se você conseguir fazer os vivos pararem de tremer só de ouvir essa palavra, eu já te considero uma bênção.

Por fim, Huehueteotl se virou para uma presença feminina que emanava firmeza e cuidado, como uma autoridade que não precisava ser agressiva para ser respeitada.

— E Chicomecoatl — concluiu ele. — Deusa da agricultura, da nutrição e da abundância. Se Centeotl é o sustento, ela é a mão que garante que o sustento chegue.

Chicomecoatl me observou com atenção, de cima a baixo, não com julgamento, mas com análise. Então falou com calma:

— Uma deusa dos mortos que fala em memória e passagem… isso pode ser útil aos mortais. Muito útil. Mas utilidade, aqui, sempre atrai olhos.

Eu assenti lentamente, entendendo a mensagem por trás da frase.

Huehueteotl então voltou a olhar para mim, como se quisesse marcar aquele momento.

— Catrina — disse ele, com uma firmeza suave — este é o meu círculo. Eles não são os mais barulhentos daqui. Mas são os que ainda lembram por que os mortais importam.

O salão ao redor continuava vivo, em grupos, em intrigas, em disputas silenciosas. Mas ali, por alguns instantes, eu senti algo que não esperava sentir numa reunião de deuses: uma espécie de acolhimento.

Não total. Não ingênuo.

Mas real.

E, enquanto conversávamos, eu sabia que, mesmo sendo convidada, minha presença já havia sido marcada por muita gente além daquele círculo. O tipo de gente que não elogia em voz alta — apenas observa, memoriza… e decide.

Eu mantive a postura. Respirei devagar.

A reunião mal havia começado.

E eu já podia sentir que aquele banquete não seria apenas comida e conversa.

Seria um teste.

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