EXPLICAÇÃO DA HIERARQUIA DE PODER DIVINO
Nível de Poder Divino Fraco
Onde nascem as novas divindades. Nesse estágio, o deus ainda é instável, dependente quase totalmente do reconhecimento direto dos mortais. Sua existência pode enfraquecer rapidamente caso seja esquecido ou rejeitado. O corpo divino é frágil ou inexistente, muitas vezes limitado a formas espirituais. Um deus nesse nível pode ser apagado com relativa facilidade.
Nível de Poder Divino Médio
Quando a divindade consegue acumular reconhecimento suficiente para se estabilizar. Nesse nível, o deus é capaz de solidificar um corpo divino funcional, manter presença constante no mundo e agir sem desaparecer após cada uso de poder. Sua fé já está enraizada em povos ou regiões específicas. Ainda pode ser derrotado, mas não é facilmente apagado.
Nível de Poder Divino Grande
Divindades amplamente reconhecidas, com culto consolidado e influência extensa. Possuem territórios definidos, autoridade clara sobre seus domínios e podem impor sua vontade sobre outros deuses mais fracos. São difíceis de destruir e raramente dependem de um único povo para manter sua existência. Sua palavra já carrega peso político entre os deuses.
Deus Principal
O pilar de um panteão. Representa um conceito fundamental e exerce autoridade direta sobre outros deuses do mesmo panteão. Um deus principal não pode ser apagado apenas pela perda de fiéis; sua existência está ligada à própria estrutura do mundo ou da realidade. Derrubá-lo exige eventos de escala cósmica.
Rei dos Deuses
O ápice da hierarquia divina. Não governa apenas por força, mas por legitimidade cósmica. Sua autoridade se impõe mesmo sobre outros deuses principais. Decide conflitos entre panteões, define regras fundamentais e pode alterar o equilíbrio do mundo. A existência de um rei dos deuses costuma estar ligada a eras inteiras. Sua queda, quando ocorre, muda a história do universo.
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Dez anos haviam se passado.
O tempo, para mim, já não corria da mesma forma que para os mortais, mas ainda assim eu sentia o peso daqueles anos. Dez ciclos completos de observação, aprendizado, erros e pequenos acertos. Dez anos desde que acordei fraca, quase inexistente, perdida em um mundo antigo que ainda engatinhava em suas próprias crenças.
Agora, eu estava novamente sentada àquela mesa.
A grande sala de pedra permanecia praticamente igual. As tochas presas às paredes lançavam sombras vivas sobre os rostos esculpidos nos pilares, e o cheiro constante de fumaça e comida quente impregnava o ar. À minha frente, Huehueteotl ocupava seu lugar de sempre, sentado com as pernas cruzadas, o corpo enrugado curvado sobre a mesa de pedra.
Ele encarava uma tigela de mingau com profundo desgosto.
— Isso aqui está duro — resmungou, cutucando o conteúdo com uma colher de madeira. — Muito duro.
Observei por alguns segundos, tentando entender se aquilo era uma brincadeira… até perceber que ele realmente parecia ofendido.
— Huehueteotl… — comecei, contendo o riso — isso é mingau.
— Pois é! — respondeu ele, indignado. — Era pra ser mole.
Ele tentou levar outra colherada à boca, mastigou por alguns segundos — mesmo sem dentes — e fez uma careta exagerada, como se estivesse enfrentando a refeição mais difícil de sua longa existência.
Não consegui me conter. Ri.
Uma risada leve, sincera, que escapou antes que eu pudesse controlar. Huehueteotl parou por um instante, me olhou de lado e pigarreou, visivelmente constrangido.
— Não ria — disse, fingindo dignidade. — Quando você viver milhares de anos, vai entender o drama de comer sem dentes.
Minha risada só aumentou.
Enquanto aquela cena simples se desenrolava, percebi o quanto aquilo havia se tornado natural. Em algum momento daqueles dez anos, Huehueteotl deixou de ser apenas um deus antigo e passou a ser… meu amigo. O primeiro amigo que fizera naquele mundo.
Durante esse tempo, nos encontramos muitas vezes. Conversamos sobre mortais, deuses, erros do passado e coisas pequenas, como o gosto da comida ou o tédio de existir por eras incontáveis. Ele me ensinou muito mais do que imaginava — não sobre poder, mas sobre paciência.
E eu havia mudado.
Eu sentia isso com clareza.
Anos atrás, meu corpo mal conseguia se manter coeso. Cada manifestação exigia um esforço enorme, drenando tudo o que eu tinha. Agora, minha presença era estável. Meu corpo divino já não se desfazia após cada intervenção. O reconhecimento havia se acumulado, camada por camada, até que algo dentro de mim finalmente se solidificou.
Eu havia avançado.
Não era mais uma divindade fraca, à beira do desaparecimento. Meu poder havia crescido até um ponto intermediário, firme o suficiente para existir sem medo constante de ser apagada. Não absoluta, não dominante — mas real.
Enquanto Huehueteotl empurrava o mingau para longe, desistindo da batalha, meus pensamentos se voltaram para tudo o que havia sido conquistado nesses dez anos.
A tradição havia se espalhado.
Começou pequena, como eu esperava. Uma aldeia, depois outra. Pessoas viajando levavam consigo histórias simples: lembrar dos mortos, montar pequenos altares, oferecer frutas, comida, objetos queridos. Em um mundo onde velas ainda não existiam, pequenas tochas passaram a ser usadas, imitando chamas cuidadosas que iluminavam nomes e memórias.
E isso gerou algo curioso.
Muitos passaram a acreditar que a deusa dos mortos caminhava em harmonia com o fogo. Não porque eu tivesse dito isso — eu nunca disse — mas porque os rituais se encaixavam naturalmente sob a jurisdição de Huehueteotl. Onde o fogo era respeitado, a lembrança dos mortos também encontrava espaço.
A tradição não se espalhou pela força. Ela passou de boca em boca, de viajante em viajante, cruzando trilhas antigas, alcançando outras tribos sob a mesma influência divina. Não havia templos grandiosos. Apenas gestos simples repetidos com intenção sincera.
— Você está longe hoje — comentou Huehueteotl, quebrando meu silêncio enquanto empurrava a tigela para o lado.
— Estava pensando — respondi. — Em tudo o que mudou.
Ele deu uma risadinha rouca.
— Mudou bastante mesmo.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ele apoiou as mãos enrugadas sobre a mesa e me olhou com atenção.
— Catrina — disse, usando meu nome com naturalidade — eu não a chamei aqui só para sofrer com comida impossível de mastigar.
Inclinei levemente a cabeça.
— Imagino.
— A cada cem anos — continuou — o panteão asteca se reúne. Todos. Uma reunião longa, barulhenta e cheia de egos antigos. E eu gostaria que você fosse comigo.
A ideia me pegou desprevenida.
— Como… convidada? — perguntei.
— Como minha convidada — confirmou. — Convidados recebem proteção. Ninguém ousaria tocar em você sob minha responsabilidade.
Hesitei por um instante.
— Quando será essa reunião?
— Daqui a dois dias — respondeu ele. — Quando o sol estiver bem no meio do céu.Huehueteotl fez um gesto vago com a mão. — É o horário tradicional. Você deve chegar um pouco mais cedo, para irmos juntos.
Assimilei a informação em silêncio.
— Dois dias… ao meio-dia — repeti.
— Exato — disse ele, satisfeito. — Estarei esperando.
Assenti levemente, aceitando o convite por completo.
Pouco tempo depois, me despedi. Agradeci novamente pela hospitalidade, pelas conversas, pela paciência ao longo desses anos. Huehueteotl acenou com a mão, dizendo que eu sempre seria bem-vinda ali.
Ao deixar o templo, caminhei pelas trilhas próximas, observando as aldeias ao redor. Pequenos altares surgiam diante das casas. Crianças ajudavam os mais velhos a organizar oferendas. Nomes eram ditos em voz alta, sem medo.
Sorri ao sentir algo familiar.
Amaru.
Decidi visitá-lo.
Aproximei-me de sua cabana em silêncio. Ele havia mudado muito. O jovem caçador de antes agora era um homem feito, com postura firme e olhar sereno. Tinha uma companheira ao seu lado e dois filhos pequenos, sentados à sua frente.
Ele falava com calma, ensinando-os sobre respeito, sobre memória, sobre aqueles que vieram antes.
— Não esquecemos quem partiu — dizia ele. — Enquanto lembramos, eles caminham conosco.
Observei à distância.
Então, ele parou.
Não me viu. Mas sentiu.
Levantou o olhar na direção exata onde eu estava, e um leve sorriso surgiu em seu rosto. Nenhuma palavra foi dita. Não era necessário.
Fiquei ali por alguns instantes, apenas observando.
Depois, segui adiante.
Sem perceber que, muito além daquele vale, meu nome já começava a circular em lugares onde eu ainda não havia pisado.
