Inclinei a cabeça diante do velho deus, sentindo um respeito calmo e profundo. Não era medo, nem submissão. Era gratidão sincera.
— Obrigada — disse. — Pela permissão. Pela ajuda. Por não me tratar como uma ameaça quando eu ainda sou fraca.
Huehueteotl observou as chamas do braseiro por um instante antes de responder.
— Enquanto o que você ensina aliviar o peso dos mortais, estas terras não se fecharão para você — disse, com simplicidade. — Você não veio tomar nada. Veio dar sentido. Isso faz diferença.
Assenti. Aquelas palavras bastavam.
Despedi-me ali, sem cerimônias exageradas. O templo de pedra ficou para trás, junto com o calor constante das tochas e o silêncio antigo daquele lugar. Ao sair, a floresta me envolveu novamente, viva, respirando, cheia de pequenos sons que agora eu percebia com mais clareza.
Enquanto flutuava entre as árvores, um pensamento se firmou com nitidez.
A primeira coisa que eu faria seria agradecer Amaru.
Se aquela tradição havia sobrevivido aos dias em que estive inconsciente, foi porque ele não recuou. Não questionou. Apenas seguiu em frente. Isso não podia ficar sem resposta.
Foi então que me dei conta de algo óbvio.
Eu não sabia onde ele vivia.
Parei entre as árvores e fechei os olhos. Ainda fraca, estendi meus sentidos com cuidado, deixando meu poder tocar o mundo ao redor de forma leve, sem impor nada. Não procurei seu corpo nem tentei forçar um caminho. Busquei aquilo que o definia. A marca deixada pelo primeiro gesto sincero. A chama tranquila que ardia em seu coração desde o momento em que ele escolheu lembrar.
Demorou um pouco, mas então senti.
Uma presença firme, constante, discreta. Familiar.
Segui essa sensação, flutuando lentamente pela floresta, até perceber onde ela se concentrava. Entre várias cabanas simples, uma se destacava — não pela forma, mas pelo peso da intenção que carregava.
Ali era o lar de Amaru.
Aproximei-me com cuidado. Deixei que minha presença fosse sentida antes de ser vista, como um calor suave que não assusta. Quando apareci diante dele, Amaru ergueu os olhos, surpreso por um instante, mas não recuou.
— Vim agradecer — disse, com suavidade. — Você manteve viva uma ideia quando eu não podia estar aqui. Isso não será esquecido.
Amaru respirou fundo. Seus ombros relaxaram.
— Eu só segui o que me foi ensinado — respondeu. — Parecia… certo.
— E foi — confirmei. — Por isso outros seguiram também.
Ele não pediu nada. Não esperava recompensas. Apenas assentiu, em silêncio. Aquela simplicidade dizia mais do que qualquer palavra.
Depois disso, observei.
Dia após dia, a tradição se enraizou. Pequenos altares surgiram diante das cabanas. Frutas simples. Pedaços de comida. Palavras ditas em voz baixa. Como não existiam velas, pequenas tochas passaram a ser usadas, colocadas ao lado das oferendas, acesas com cuidado.
Ninguém achava estranho.
Afinal, estavam em terras regidas pelo fogo. O uso das chamas era natural. Familiar. Não havia conflito nisso. Pelo contrário, o ritual parecia se encaixar no cotidiano sem causar estranhamento, como se sempre tivesse estado ali, apenas esquecido.
Viajantes começaram a notar.
Caçadores de outras aldeias perguntavam sobre aquelas pequenas tochas. Comerciantes escutavam histórias simples: de sonhos bons, de lembranças acolhidas, de mortos que não voltavam com medo, mas com carinho. Mensageiros levavam essas histórias consigo, repetindo-as em outras terras.
Assim, a tradição cruzou os limites da tribo.
Onde a jurisdição do Deus do Fogo alcançava, o ritual não encontrava resistência. Não porque houvesse aliança divina, mas porque nada nele contrariava as regras daquele território. Era apenas memória, calor e respeito.
Enquanto isso, eu sentia.
Meu poder divino crescia devagar, como brasas sendo alimentadas uma a uma. Cada lembrança sincera fortalecia algo dentro de mim. Cada nome dito com carinho me tornava um pouco mais real naquele mundo.
Ainda era pouco. Ainda era frágil.
Mas agora havia raízes.
Meu reino permanecia distante, como um eco que eu ainda não conseguia alcançar. Ainda assim, eu sabia: ele existia. E estava esperando.
Enquanto flutuava entre as árvores, observando a vida seguir seu curso, compreendi algo essencial:
A tradição não precisava ser explicada demais. Nem defendida.
Ela só precisava ser vivida.
E foi assim que passei a caminhar.
Não fiquei presa a uma única aldeia. Segui adiante, atravessando trilhas, rios rasos, campos abertos e florestas mais densas. De aldeia em aldeia, observei. Não interferi. Não apareci. Apenas estive presente.
Em alguns lugares, a tradição ainda era tímida. Um pequeno altar esquecido diante de uma cabana. Uma tocha acesa rapidamente, quase com vergonha. Em outros, já havia cuidado. Pessoas reunidas ao entardecer, nomes ditos com respeito, histórias contadas em voz baixa.
Vi viajantes pararem por curiosidade e partirem levando a ideia consigo. Vi caçadores explicarem o ritual a outros povos, não como mandamento, mas como algo que valia a pena tentar. Vi mães ensinarem filhos a lembrar. Vi idosos sorrirem ao ouvir nomes que achavam que o tempo havia levado.
Nem todos acreditavam. Nem todos sonhavam. E isso estava bem.
A crença não se espalhava pela força, nem pela promessa de recompensas. Ela se espalhava porque oferecia algo simples: conforto. Um jeito de aceitar a ausência sem apagar o amor.
Enquanto eu observava, algo em mim mudava. Não era uma sensação de força bruta, nem um aumento repentino de poder. Era mais… estabilidade. Como se minha presença deixasse de ser passageira e começasse a se fixar naquele mundo.
Cada aldeia que adotava a tradição me tornava menos estranha àquele lugar. Não porque me temessem ou me venerassem, mas porque meu nome começava a fazer parte das histórias, das conversas baixas ao entardecer, dos gestos simples repetidos noite após noite.
Eu ainda não era grande. Ainda não tinha um reino para chamar de meu. Mas já não era apenas uma visitante.
E, enquanto houvesse alguém disposto a lembrar,
E assim ela continuou caminhando, observando, aprendendo, sem perceber o alcance real do que havia iniciado. Ao longe dali, fora das aldeias que visitava, sua influência já começava a crescer. Histórias se espalhavam, rituais eram repetidos, nomes eram lembrados. Mesmo sem saber, a presença da deusa da passagem e dos mortos começava, pouco a pouco, a ser notada.
