Sentada à mesa de pedra, observei as chamas dançarem no braseiro do velho deus. Um sorriso discreto surgiu em meus lábios quando me dei conta do que havia acontecido enquanto eu estivera inconsciente. Amaru tinha seguido em frente. Mesmo sem mim, mesmo sem respostas, ele havia mantido a fé viva. Aquilo aqueceu algo dentro de mim.
— Obrigada… — murmurei, mais para mim do que para qualquer outro.
Então me virei para o ancião à minha frente.
— Preciso me desculpar — disse, com sinceridade. — Invasão de território, interferência… fui imprudente. E agora estou fraca. Se quisesse me destruir, poderia fazê-lo.
O velho riu, uma risada rouca, sem dentes, que ecoou leve pelo salão.
— Se fosse outro, você já teria virado cinzas — respondeu Huehueteotl, balançando o braseiro com cuidado. — Muitos deuses do meu panteão não toleram invasões. Mas eu… eu gosto dos mortais. Sempre gostei.
Ele me encarou com olhos antigos.
— Vi o que você ensinou. Vi a alegria que trouxe. Uma tradição que consola, que aquece o coração… por que eu pisaria nisso? O nosso deus dos mortos é frio. Implacável. Para ele, a morte é fim, não passagem. O nome dele é Mictlantecuhtli, ele não vai se sentir ameaçado por você. Deuses dos mortos, independentemente do panteão, respondem à própria Morte. São aspectos dela. Quando a chefona fala, eles abaixam a cabeça. Se você está aqui, é porque foi autorizada.
Morte…
O pensamento me levou a outra figura. Uma presença gentil, quase humana. Lembrei-me da Morte daquele outro universo — a de manto negro e sorriso tranquilo, que tratava os vivos com respeito e humor. Aquilo sempre me parecera… correto.
— Normalmente — continuou o velho — um deus dos mortos nasce com um domínio. Hades tem o Submundo. Hel tem Helheim. Reinos são quase conscientes. Eles escolhem seus reis. Você também deveria ter um.
Olhei para as chamas, pensativa.
— Mas ainda sou fraca demais para sentir essa conexão.
— Exato — ele sorriu. — O reino está lá. Esperando.
Sem querer, minha mente foi para O Livro da Vida. A Terra dos Lembrados. Um lugar moldado pela memória, pelo afeto. A ideia se encaixava… bem demais.
— E agora? — Huehueteotl perguntou, interrompendo meus pensamentos. — Quais são seus planos?
Pensei no tempo. Nos séculos que viriam. Eu sabia o que aconteceria com aquelas terras. Sabia da colonização, do choque de culturas. O universo DC seguia uma história muito próxima da real.
— Primeiro, consolidar minha crença entre os nativos — respondi, devagar. — Depois, encontrar meu reino. O terceiro passo… ainda não sei.
Ele assentiu, satisfeito.
— Territórios divinos funcionam pela adoração e pela influência. Cada deus tem sua área, e geralmente não interferimos uns nos outros. Desde que não busque guerra. Mas nem todos seguem isso. Há deuses cruéis. Intolerantes.
— E no panteão asteca? — perguntei.
Huehueteotl soltou uma risada curta, como se eu tivesse feito a pergunta mais natural do mundo.
— Aqui também há regras — respondeu. — Não é porque alguns deuses ignoram certos limites que eles deixam de existir. Território é território. Fé é fé. E muitos não toleram que outra divindade coloque o pé onde não foi chamada.
Ele apoiou o braço na mesa e me olhou com calma.
— Como você é uma deusa iniciante, o correto seria ter permissão para espalhar sua crença dentro das terras de outro panteão. Sem isso, você vira alvo. Não por justiça, mas por orgulho.
Ele fez uma pausa, então abriu um sorriso leve.
— No seu caso… você terá essa permissão. A minha. Pelo que vi, você não veio para tomar, veio para aliviar. Então, enquanto sua fé caminhar sem agressão e sem guerra, eu não vou impedir — e, dentro do que está sob minha jurisdição, eu não deixarei que te interrompam com facilidade.
Huehueteotl apoiou o braseiro com mais cuidado e falou com um orgulho tranquilo, sem arrogância.
— Sou muito, muito velho — disse. — Um dos primeiros do panteão asteca. Talvez não o mais poderoso, mas certamente um dos mais influentes. O fogo está em quase tudo: nas casas, nas fornalhas, nos rituais, na comida, na guerra e no descanso. Minha jurisdição é ampla porque o fogo caminha junto dos mortais.
Ele me olhou com atenção.
— É por isso que posso te permitir agir nestas terras. Onde o fogo alcança, minha palavra tem peso.
Então seu tom mudou, ficando mais sério.
— Mas não confunda isso com segurança absoluta — completou. — Minha permissão vale apenas dentro do que alcança minha influência. Fora dessas terras, você ainda precisará ser cuidadosa. Há deuses que não escutam razões, não observam resultados, apenas defendem orgulho e domínio.
Ele suspirou, as chamas do braseiro tremulando.
— Caminhe com calma, pequena deusa. Cresça primeiro. Entenda seu lugar. Quando for mais forte, quando seu nome for conhecido, essas barreiras se tornarão menores.
