(POV - Amaru, 5 dias atrás)
Amaru caminhava de volta para a aldeia com a cabeça baixa, mas os pensamentos agitados. Cada passo parecia ecoar as palavras que ouvira na floresta. A voz suave da deusa ainda ressoava em sua mente, calma, firme, reconfortante. Quanto mais se afastava do local do encontro, mais sentia que algo dentro dele havia mudado.
A morte já não parecia vazia. Nem fria. Nem cruel.
Ao cruzar os limites da aldeia, os sons familiares o receberam. Pessoas conversando, crianças correndo, o cheiro da fumaça subindo lentamente. Mesmo assim, tudo parecia diferente. Como se ele estivesse olhando para o mesmo lugar com outros olhos.
Chegou à sua cabana e parou diante da porta. Respirou fundo, tentando lembrar exatamente do que lhe fora ensinado. Não queria errar. Não queria desrespeitar.
Com cuidado, começou a montar um pequeno altar diante da entrada. Nada grandioso. Algumas pedras empilhadas, folhas largas sobre elas, tudo simples, mas feito com intenção. Depois entrou e separou algumas frutas e um pequeno pedaço de carne — pouco, mas ainda assim um sacrifício.
Colocou as oferendas diante do altar e fechou os olhos.
— Que vocês sejam lembrados — murmurou.
Antes que pudesse continuar, uma voz ríspida quebrou o momento.
— Amaru, o que é isso?
Seu irmão estava atrás dele, com o semblante fechado. Observava o altar e as oferendas com crescente irritação.
— Estou lembrando nossos mortos — respondeu Amaru, com calma. — Agradecendo por tudo que viveram.
O irmão franziu o rosto.
— Lembrando? Com comida? — apontou para a carne. — Você perdeu o juízo? Essa é a única carne que temos!
— Não é desperdício — Amaru insistiu. — É respeito. Eles ainda fazem parte de nós.
— Respeito não enche barriga — retrucou o irmão, a voz elevada. — Está oferecendo comida para quem não pode comer!
— Eles não comem — disse Amaru. — Mas sentem.
O irmão riu, seco.
— Faça o que quiser. Mas quando a fome bater, não venha me pedir nada.
Virou-se e entrou na cabana, deixando Amaru sozinho diante do altar. O peito do caçador apertou, mas ele não recuou. Apenas voltou sua atenção às oferendas e continuou.
— Amaru!
Uma voz infantil o chamou. Ele virou-se e viu Inti, o menino que sempre o chamava para brincar, parado a poucos passos, com outras crianças logo atrás.
— Você não vem brincar hoje? — perguntou o menino, antes de notar o altar. — O que é isso?
As crianças se aproximaram, formando um pequeno círculo. Amaru hesitou por um instante, depois sorriu e se ajoelhou para ficar na altura deles.
— É um jeito de lembrar quem já partiu — explicou. — Pessoas que amamos, mas que não estão mais aqui.
— Mas por que lembrar deles? — perguntou outra criança. — Eles já morreram.
— Justamente por isso — respondeu Amaru. — Porque morrer não apaga o amor.
Inti franziu a testa.
— Mas… a morte não é ruim? Não é ela que leva as pessoas embora?
Amaru pensou por um momento antes de responder.
— A morte é uma passagem — disse, devagar. — A vida precisa acabar para ter valor. Mas o que sentimos não acaba. A deusa que me ensinou isso não é cruel. Ela cuida. Ela acolhe.
— Uma deusa da morte que cuida? — Inti perguntou, confuso.
— Sim — Amaru assentiu. — Ela nos lembra que viver vale a pena justamente porque um dia termina.
As crianças ficaram em silêncio, absorvendo aquelas palavras. Aos poucos, a curiosidade venceu o estranhamento.
— A gente pode fazer também? — perguntou uma delas.
Amaru sorriu.
— Pode. Se lembrar com o coração.
Ele mostrou como pensar nos nomes, nos rostos, nas histórias. Como oferecer frutas, palavras, sentimentos. Uma a uma, as crianças fecharam os olhos. Algumas sorriram. Outras ficaram sérias. Mas todas sentiram algo — um calor estranho no peito, uma emoção suave, quase alegre.
— E agora? — Inti perguntou.
— Agora, vocês aguardam — respondeu Amaru.
As crianças se despediram e correram para brincar, comentando entre si, animadas.
— Eu pensei na minha avó!
— Eu lembrei do meu irmão!
— Eu senti meu coração quentinho!
A noite chegou.
Inti voltou para casa e encontrou o pai sentado, cansado. Contou tudo, falando rápido, empolgado.
— A gente lembrou da mamãe… e eu senti ela.
O pai desviou o olhar, engolindo em seco.
— Sonhos são só sonhos, meu filho — disse, tentando sorrir. — Os mortos não voltam. Você deve estar cansado, por isso, está alucinando, vá descansar um pouco.
Inti, meio decepcionado, assentiu e foi dormir.
Naquela noite, sonhou.
Viu a mãe. Sentiu o abraço, o carinho, ouviu sua voz dizendo que ele havia crescido, que estava orgulhosa. Riram juntos. Foi leve. Feliz.
Ao acordar, ele sentiu o calor do abraço de sua mãe, ainda no seu corpo, ele levantou rápido e correu até o pai.
— Eu vi ela! Não foi só um sonho! Eu senti!
O pai balançou a cabeça, confuso, e não acreditou.
Em outras cabanas, a mesma coisa acontecia. Crianças contando. Adultos duvidando.
Durante o dia, os pequenos se reuniram perto do rio, falando todos ao mesmo tempo.
— Minha mãe apareceu!
— Meu avô falou comigo!
— Eles estavam felizes!
A história começou a se espalhar. Vizinhos ouviram. Parentes comentaram.
No dia seguinte, Amaru saiu cedo para caçar. Percebeu os olhares. Cochichos. Até que um vizinho se aproximou.
— As crianças estão dizendo que você ensinou um ritual. Que elas viram os mortos. Isso é feitiçaria!
Amaru respirou fundo e falou.
Falou sobre a deusa da passagem dos mortos. Sobre lembrar com amor. Sobre não temer a morte.
Alguns riram.
— Ele enlouqueceu.
— Fala com espíritos agora?
Outros ouviram em silêncio, com esperança nos olhos.
Amaru sentiu o peso da zombaria e se afastou.
Mas naquela noite, alguns adultos esperançosos, que desejavam ter apenas um vislumbre de seus entes queridos, tentaram o ritual. Por curiosidade. Por saudade.
Dormiram.
E sonharam.
No dia seguinte, já não eram apenas crianças falando.
A aldeia inteira começava a lembrar.
E a morte deixava, pouco a pouco, de ser apenas medo.
