As notícias trazidas por Treyni colocaram as engrenagens de Avalon em movimento a toda velocidade. Sirzechs sabia que as primeiras impressões eram tudo no jogo do poder, especialmente ao lidar com outra alma reencarnada que estava moldando a floresta à sua própria imagem. Antes de qualquer movimento oficial, ele autorizou Grayfia a enviar Silas — um Homo-Hollow de segunda geração especializado em observação silenciosa — para Tempest. O relatório que Silas trouxe foi lido à luz de velas no escritório real: o assentamento de Rimuru era vibrante e forte, mas, aos olhos de Grayfia, faltava-lhe a estrutura institucional que definia uma verdadeira nação. Com esses dados em mãos, Sirzechs preparou-se não apenas para uma reunião, mas para uma demonstração de superioridade cultural.
Na clareira neutra indicada por Treyni, o [Visionário] de Sirzechs deu vida a uma estrutura que desafiava a natureza selvagem de Jura. Em poucas horas, um pavilhão de mármore branco e ferro forjado surgiu, completo com colunas neoclássicas e janelas de cristal que refletiam a luz do sol. Quando a delegação da Tempestade emergiu da folhagem, o choque foi imediato. Rimuru, em sua forma humana com cabelos azul-prateados, parou abruptamente ao lado de Benimaru, Shion e Souei. Eles não encontraram um acampamento improvisado, mas uma "Embaixada Móvel" que parecia ter sido arrancada de uma capital europeia. Alistair, o diplomata, os recebeu com uma reverência de exatos 45 graus, convidando-os a deixar suas armas em suportes de ébano, enquanto os cinquenta guardas pretorianos de Dietrich permaneciam imóveis como estátuas de osso polido, flanqueando a entrada.
Ao entrar no pavilhão, o grupo Tempest foi envolvido pelo aroma do chá Earl Grey e dos pães alquímicos de Benedict. Rimuru encarou o lustre de cristal e os tapetes de veludo carmesim com uma expressão de absoluto espanto. "Alguém construiu um museu no meio da floresta?", sussurrou o Slime para si mesmo. No centro do salão, Sirzechs aguardava, sentado à cabeceira de uma mesa de carvalho negro, com Grayfia ao seu lado, segurando uma pasta de couro contendo os termos da reunião. A aura de ordem que emanava do casal Gremory era tão densa que até mesmo a impetuosa Shion hesitou em protestar contra as regras de segurança impostas por Dietrich.
A reunião começou com Sirzechs demonstrando impecável cortesia, apresentando-se como o Soberano de Avalon e Grayfia como seu Chefe de Gabinete. Rimuru, embora tentando manter sua habitual compostura amigável, sentiu-se visivelmente deslocado naquela atmosfera de alta etiqueta. Grayfia, sem perder tempo, deslizou pergaminhos pela mesa para cada um dos subordinados de Rimuru, contendo a ata da reunião e o código de conduta comercial. Quando Benimaru questionou o que era uma "licença de ferreiro", o silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo suave minueto que Sebastian tocava ao fundo em seu violoncelo. Grayfia prontamente os informou de que a organização era o pilar da civilização e que Avalon não operava sob o "consenso informal" que parecia governar Tempest.
Rimuru soltou um longo suspiro, observando Sirzechs. Reconheceu o brilho nos olhos do ruivo — não era apenas o olhar de um monstro poderoso, mas o de alguém que compreendia as estruturas do mundo moderno. "Entendo. Vocês são o tipo de governo que adora regras, não é?", comentou Rimuru com um sorriso irônico. Sirzechs riu, uma risada calorosa que dissipou parte da tensão no ar. A conexão entre as duas reencarnações se estabeleceu naquele instante — um reconhecimento tácito de que ambos tentavam reconstruir o que conheciam em um novo território. Enquanto discutiam fronteiras e trocas comerciais, os dois poderes de Jura começaram a desenhar o primeiro mapa político oficial da floresta, sob o olhar atento de uma Grayfia que já calculava os impostos de importação sobre os produtos de Tempest.
Após a tensa formalidade da reunião ministerial, Sirzechs fez um sinal discreto para Grayfia, que prontamente conduziu os subordinados da Tempestade a uma ala externa sob o pretexto de uma "demonstração de eficiência logística". Rimuru e Sirzechs caminharam até o jardim de inverno do pavilhão, onde o som do violoncelo de Sebastian tornou-se apenas um eco distante. O Soberano de Avalon manifestou duas poltronas de couro e uma pequena mesa com um conjunto de café que exalava um aroma inconfundível.
Rimuru olhou para a xícara, depois para Sirzechs, e relaxou os ombros pela primeira vez. "Espresso? Sério? Você não está brincando, Sirzechs-san. Ou melhor... de onde você veio?" Sirzechs tomou um gole lento de sua bebida, um sorriso nostálgico cruzando seu rosto. Ele explicou, com a franqueza de alguém que finalmente encontrou um igual, que fora um humano na Terra antes de reencarnar com as memórias e os poderes do Rei Demônio Gremory. Rimuru, surpreso e aliviado, compartilhou sua história como Satoru Mikami. O diálogo fluiu naturalmente sobre as dificuldades de lidar com monstros que não entendem o conceito de fim de semana e o anseio por comodidades modernas, mas o tom logo se tornou estratégico. Sirzechs deixou claro que, embora desejasse a paz, sua visão para Avalon era a de uma monarquia institucionalizada e tecnocrática — um contraponto à federação mais descontraída de Rimuru.
"Você quer construir uma democracia monstruosa, Rimuru-kun. Eu quero construir a perfeição clássica", declarou Sirzechs, olhando para as colunas de mármore. "Mas ambos sabemos que este mundo é perigoso para os desorganizados. O que proponho aqui não é apenas um pacto de não agressão, mas uma troca. Eu tenho a ordem, a etiqueta e a tecnologia de construção. Você tem a diversidade de raças e os recursos naturais que a floresta oferece." Rimuru concordou, percebendo que a estrutura de Avalon poderia servir de modelo para as futuras expansões de Tempest. Ficou decidido que o primeiro passo para essa aliança seria a troca de "Embaixadores Técnicos".
Nota do autor:
O Choque de Filosofias: Este capítulo destaca a principal diferença entre nossos protagonistas. Rimuru constrói de baixo para cima (comunidade), enquanto Sirzechs constrói de cima para baixo (instituição).
Próximos passos: A troca de embaixadores vai ser caótica. Imagine um goblin tentando seguir o manual de 500 páginas da Grayfia sobre "Como andar em um corredor".
