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Chapter 9 - O Mustang de Prata e o Pranto da América

O cheiro de couro novo era, para Leo, o aroma da liberdade. Ele estava sentado ao volante de um Ford Mustang 1965 cor prata metálica, o modelo que havia sido lançado há poucos meses e já se tornara o objeto de desejo de toda uma geração. Ele pagou dois mil e quinhentos dólares à vista, em notas de cem, no concessionário em Hollywood Boulevard. O vendedor, que inicialmente o olhou de cima a baixo por causa de suas botas de trabalho, quase tropeçou na própria língua quando Leo deslizou o maço de dinheiro sobre o balcão.

Leo ajustou o espelho retrovisor. Ele não estava mais usando a camiseta branca manchada de graxa. Vestia uma camisa de botão azul clara da Brooks Brothers e óculos de sol Ray-Ban Wayfarer. No banco do passageiro, a pasta de couro continha algo mais valioso que o ouro: o exemplar de junho da revista Ladies' Home Journal.

A capa da revista trazia uma chamada em letras elegantes: "Um fenômeno literário: Leia a primeira parte de 'Love Story', de Leo."

Ele ligou o motor. O ronco do V8 era uma sinfonia que abafava as memórias de seu ataque cardíaco em 2026. Leo não estava surpreso com a rapidez da publicação. Ele sabia que Lew Wasserman possuía tentáculos em todos os meios de comunicação e que a Universal precisava criar "fome" no público antes de lançar o filme. O que o mundo de 1965 chamava de "estratégia ousada", Leo chamava de "terça-feira comum" na era do marketing viral.

...

Ele dirigiu até o pátio da Universal Pictures. Ao chegar ao portão principal, o guarda, que o conhecia como o "garoto dos recados", bloqueou a passagem com a mão.

— Ei, garoto! O estacionamento de funcionários é lá nos fundos, perto dos galpões de lixo. E que carro é esse? Roubou de algum produtor?

Leo baixou os óculos de sol lentamente.

— Confira a lista de convidados para o Edifício Executivo, Joe. Nome: Leo. Status: Consultor de Produção e Autor.

O guarda franziu a testa, confuso. Ele consultou a prancheta e seu rosto empalideceu. O nome de Leo estava lá, marcado com uma estrela vermelha — o código para visitantes de alta prioridade da MCA.

— Eu... sinto muito, Sr. Leo. Pode passar. Estacionamento preferencial no Setor A, por favor.

Leo acelerou, deixando o guarda na poeira. Ele não sentia um prazer mesquinho; sentia apenas a satisfação de ver a realidade se dobrar à sua vontade.

Ao estacionar perto da Torre Negra, ele viu a equipe do Set 12 descarregando equipamentos. O AD Miller estava lá, gritando como sempre, o rosto vermelho de fúria por causa de um cabo de iluminação quebrado.

— Onde está o idiota que deveria ter checado isso? — Miller rugiu. Ele viu o Mustang prata estacionar e parou por um segundo. Quando Leo saiu do carro, Miller caminhou em sua direção, sem reconhecê-lo de imediato sob o terno novo e os óculos caros. — Ei, senhor, este setor é apenas para executivos e...

Leo tirou os óculos.

— Miller. Como vai o café?

Miller travou. Seus olhos saltaram das órbitas enquanto ele examinava o ex-assistente de produção que, há menos de dez dias, estava limpando lama de botas de figurantes por cinco dólares ao dia.

— Leo? O que... que palhaçada é essa? De onde veio esse carro? E esse terno? Você foi demitido, seu imbecil! Fugiu com o dinheiro do caixa fixo?

— Eu não fugi, Miller. Eu evoluí — Leo disse, sua voz calma e perigosa. — E se eu fosse você, baixaria o tom. Norman Brokaw e Lew Wasserman estão me esperando lá em cima. E, pelo que me consta, eles estão muito interessados na minha opinião sobre quem tem competência para gerenciar os sets dos meus próximos filmes.

Miller deu um passo atrás, como se tivesse sido atingido por um soco invisível. A palavra "filmes" ecoou no pátio. Os outros assistentes de produção pararam o que estavam fazendo, olhando para Leo com uma mistura de choque e adoração. Eles viram a revista no banco do passageiro. Eles sabiam que algo grande estava acontecendo.

— Você... o autor? Aquele 'Love Story' que todas as secretárias da Torre estão lendo e chorando? — Miller gaguejou, o suor começando a brotar em sua testa.

Leo deu um sorriso gélido, o tipo de sorriso que um predador dá antes do bote.

— Exatamente. E da próxima vez que precisar de um café, Miller, peça com educação. O mundo está mudando, e você é apenas uma nota de rodapé no meu roteiro.

Leo virou as costas e caminhou em direção à Torre Negra, deixando Miller paralisado sob o sol do meio-dia.

...

No 15º andar, o ambiente era diferente. Norman Brokaw estava sentado na sala de espera VIP, lendo o New York Times. Ele levantou os olhos quando Leo entrou. O agente não disse nada por um longo momento. Ele apenas observou a postura de Leo, a maneira como ele se movia — sem a pressa ansiosa dos jovens, mas com a calma autoritária de um veterano.

— Você viu as notícias de Nova York? — perguntou Norman, dobrando o jornal.

— A Ladies' Home Journal esgotou nas bancas de Manhattan em três horas — Leo respondeu, sentando-se à frente dele.

— Mais que isso. Recebi doze ligações de editores querendo o manuscrito completo para o lançamento do livro físico. E Robert Evans, da Paramount, me ligou três vezes hoje de manhã. Ele está furioso porque Wasserman chegou primeiro no 'Tubarão' — Norman soltou uma risada curta e seca. — Ele disse que eu escondi um gênio na William Morris por dez anos e nunca contei a ele.

Leo acendeu um Lucky Strike com seu isqueiro Zippo de prata.

— O que Lew quer hoje?

— Ele quer acelerar a produção de Love Story. Ele quer que o filme esteja nos cinemas no próximo ano. Ele já está falando com diretores. E ele quer que você comece a trabalhar no roteiro de Jaws imediatamente — Norman inclinou-se para a frente. — Mas há algo que está incomodando os leitores da revista, Leo. Algo que eu também sinto.

Leo manteve a expressão neutra.

— O quê?

— As pessoas estão ligando para a redação. Elas dizem que a história parece... "verdadeira demais". Não como uma biografia, mas como se o tom, o ritmo, as emoções... como se você tivesse inventado uma nova forma de sofrer. Elas estão chamando de 'Realismo Moderno'. — Norman fixou seus olhos astutos nos de Leo. — Como um rapaz que nunca saiu de Los Angeles sabe como é a sensação exata de uma tarde de neve em Harvard? Como você sabe o nome das lojas que abriram há apenas dois meses em Boston?

— Eu faço minha pesquisa, Norman.

— Não é apenas pesquisa, Leo. É visão. — Norman ficou em silêncio por um instante, estudando o rosto do garoto. — Eu represento o Elvis, a Marilyn... eu vi o 'X' neles. Mas você... você tem algo mais. Você não quer ser uma estrela. Você quer ser o dono da constelação.

Leo apenas assentiu, aceitando o elogio como um fato consumado.

— Norman, eu quero o Steven Spielberg como assistente de direção nesse roteiro de Jaws — Leo disse subitamente.

— O garoto intruso? Lew vai rir da sua cara. Ele quer diretores de renome, homens que fizeram épicos de guerra.

— Lew vai fazer o que eu sugerir, porque ele sabe que, se eu tirar o tubarão da Universal agora, as ações da MCA caem cinco pontos antes do fechamento do mercado — Leo levantou-se. — Vamos. O Zeus está nos esperando.

Leo caminhou em direção à porta do escritório de Wasserman. Ele sabia que o choro da América por Jenny Cavilleri era apenas o começo. Em breve, ele ensinaria o mundo a ter medo da água, e depois, ensinaria o que acontece quando um carro ganha alma e sede de sangue.

O Ciclo de Sísifo não era apenas uma lembrança agora; era um degrau que ele já havia subido. Desta vez, ele não estava empurrando a pedra. Ele estava sentado nela, observando o império que estava prestes a construir.

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