Ficool

Chapter 3 - Sangue na Água e Café no Set

O som das teclas batendo contra o papel era como o disparo de uma metralhadora em câmera lenta. No silêncio sufocante de um quarto de hotel barato em Burbank, Leo inclinava-se sobre sua Smith Corona Classic 1965. O metal frio da máquina, pintado em um tom de azul fosco, vibrava a cada golpe de seus dedos.

Ele estava exausto. Seus olhos, injetados de sangue pela falta de sono, ardiam sob a luz amarela de uma lâmpada solitária. O relógio de parede marcava 3:15 da manhã. Em menos de três horas, ele teria que estar no pátio da Universal Pictures para o call time das 6:00. Mas ele não conseguia parar. A adrenalina de saber que estava segurando o futuro em suas mãos era mais potente que qualquer anfetamina que os atores da época usavam para aguentar as filmagens.

“A mulher nadava em direção ao mar aberto, ignorando a escuridão absoluta abaixo dela. Ela não sentiu a aproximação. Sentiu apenas a súbita e violenta ausência de suas pernas.”

Leo parou, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de fita adesiva e pó de magnésio. Ele estava escrevendo a cena de abertura de Tubarão. Mas não era a versão hesitante que Peter Benchley escreveria anos depois. Leo estava injetando nela o ritmo cinematográfico de 2026, a crueza de décadas de evolução do terror e a estrutura de um blockbuster moderno.

Ele usava papel carbono entre as folhas. Precisava de cópias. Em 1965, não havia "salvar na nuvem". Se um incêndio atingisse aquele hotel decrépito, o futuro do cinema viraria cinzas. Ele guardava os originais dentro de uma caixa de metal de película de 35mm, escondida sob o assoalho solto do armário.

— Só mais cinco páginas — ele sussurrou para as paredes descascadas. — Se eu terminar o primeiro ato antes de sexta, posso tentar "perder" uma cópia na mesa de Robert Evans.

...

Às 6:05 da manhã, a realidade do "gofer" o atingiu como um balde de água gelada.

Leo estava no Set 14 da Universal, carregando quatro sacos de lixo industriais cheios de restos de gesso e madeira compensada. O sol mal havia nascido, mas o pátio já era uma colmeia de atividade frenética. Caminhões roncavam, eletricistas gritavam sobre o "gaffer" e o cheiro de café Maxwell House barato inundava o ar.

— Leo! Pare de vadiar! — gritou o Segundo Assistente de Direção (2nd AD), um homem chamado Miller que parecia ter nascido com uma úlcera. — O Sr. McLaglen quer o Set 12 limpo em dez minutos. Eles vão filmar um plano sequencia com o Jimmy Stewart e eu não quero ver nem uma ponta de cigarro naquele chão!

— Sim, senhor — respondeu Leo, forçando um sorriso de submissão.

Enquanto varria o chão do set, Leo observava tudo. Para qualquer outro assistente, aquilo era apenas trabalho escravo. Para Leo, era uma aula de espionagem industrial. Ele ouvia os produtores discutindo orçamentos estourados em musicais que ele sabia que seriam fracassos. Ele via os agentes da William Morris Agency circulando como tubarões em terra firme, sussurrando nos ouvidos dos diretores sobre "talent packaging".

Ele era invisível. Um assistente de produção é parte do cenário, como um suporte de iluminação ou um cabo de som. Ninguém se importa com o que o "cara do café" está ouvindo.

No intervalo para o almoço, enquanto o restante da equipe corria para o refeitório para comer bife com molho Thousand Island, Leo se escondia atrás do caminhão de transporte de equipamentos. Ele pegava um pequeno bloco de notas e revisava a estrutura do capítulo que escrevera na noite anterior.

"O prefeito de Amity... ele precisa ser mais político, mais burocrata. O público de 1965 ainda confia na autoridade, eu preciso quebrar essa confiança", ele anotava furiosamente.

— O que você tem aí, garoto? Um roteiro?

Leo saltou, escondendo o bloco sob a camiseta. À sua frente estava um gaffer veterano, fumando um Lucky Strike e olhando-o com uma mistura de pena e curiosidade.

— Só... notas de produção, senhor. Não quero esquecer o pedido de filtros da câmera de amanhã.

O velho soltou uma risada rouca, expelindo uma nuvem de fumaça cinzenta.

— Esqueça os filtros, garoto. Se você quer subir nesta cidade, ou você nasce filho de um magnata ou você aprende a lamber as botas certas. Escrever não vai te levar a lugar nenhum além da fila do desemprego. Olhe para esses sets... estamos fazendo filmes de 8 milhões de dólares que ninguém quer ver. A televisão está nos matando. Hollywood está morrendo, Leo.

Leo olhou para a "Torre Negra" da MCA ao longe. Ele sabia que o velho tinha razão sobre o presente, mas estava tragicamente enganado sobre o futuro.

— Hollywood não está morrendo — disse Leo, os olhos brilhando com uma intensidade que fez o gaffer recuar um passo. — Ela só está trocando de pele. E eu pretendo ser o cirurgião.

...

A tarde foi um borrão de dor física. Ele passou quatro horas em pé, sob um calor de 30 graus, fazendo o "lock-down" de uma rua lateral no backlot da Universal para evitar que o barulho de carros reais arruinasse o som de um filme de época. Suas pernas tremiam, um eco do cansaço que o matara em 2026. Mas desta vez, ele tinha um propósito.

Sempre que levava um café Maxwell House para o escritório de produção, ele observava a pilha de manuscritos na mesa da secretária do Sr. Wasserman. O "slush pile". Milhares de páginas esperando por uma chance que nunca viria porque eram mal escritas, lentas e sem ganchos comerciais.

Ele percebeu que não poderia simplesmente enviar seu livro pelo correio. Ele seria enterrado sob aquela montanha de mediocridade. Ele precisava de um "vazamento".

Ao fim do dia, quando o AD anunciou o "Abby Singer" — o penúltimo plano do dia — a equipe suspirou de alívio. Leo, no entanto, sabia que seu verdadeiro trabalho estava apenas começando.

Ele voltou para o hotel à noite, com os dedos latejando. Suas mãos estavam cobertas de pequenos cortes de papel e manchas de óleo de máquina. Ele se sentou diante da Smith Corona. O cheiro da fita de tinta fresca era seu único perfume.

Ele começou a datilografar o encontro entre Brody e Quint. Ele usava a voz de Robert Shaw em sua mente, a autoridade ríspida de quem viu o horror no USS Indianapolis. Em 1965, esse tipo de monólogo visceral era impensável para um filme de verão. Seria revolucionário.

O Ciclo de Sísifo continuava. De dia, ele empurrava a pedra da servidão, limpando o chão e sendo humilhado por homens que ele superaria em breve. De noite, ele esculpia a pedra na forma de uma obra-prima que mudaria a história da cultura pop.

Leo olhou para o manuscrito crescendo ao lado da máquina. Quarenta páginas. O suficiente para um adiantamento se caísse nas mãos certas.

Ele apagou o cigarro no cinzeiro de vidro, o som do metal da máquina de escrever ecoando novamente no quarto escuro. Ele não era mais apenas um assistente de produção. Ele era o homem que ia ensinar Hollywood a ter medo de entrar na água.

— Amanhã — ele murmurou, enquanto a folha de papel carbono manchava seus dedos de preto como sangue seco. — Amanhã eu começo a "Love Story". Se o terror não abrir as portas, o romance abrirá o coração deles. E o bolso também.

O mundo em Technicolor lá fora estava dormindo, mas Leo estava bem acordado, costurando o passado com as linhas do futuro.

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