Ficool

Chapter 1 - O Peso do Cisne

A dor não era uma agulhada; era um incêndio que devorava a perna esquerda de Stephen de dentro para fora. Nos bastidores do teatro, o ar cheirava a poeira, suor e o cheiro metálico do próprio sangue que começava a pisar por baixo do tecido grosso da meia-calça.

​Minutos antes, a raiva cega e a respiração alcoólica do padrasto ainda ecoavam na sua mente. O estalo seco no corredor de casa, o golpe covarde focado em destruir a única coisa que dava sentido à vida de Stephen. Mas ele não aceitaria o fim ali. Não hoje.

​A orquestra deu o sinal. A melodia de Tchaikovsky ecoou pelo salão, solene e imponente.

​Stephen fechou os olhos por um segundo, engoliu o grito que queimava na garganta e entrou no palco sob a luz branca dos refletores.

​Cada passo era um martírio. No papel do Cisne Negro, a graciosidade exigia força total, mas cada impacto do pé contra o chão parecia moer o osso já fraturado. A plateia via apenas a entrega visceral de um bailarino genial; não enxergavam o tremor involuntário em seus lábios ou a visão que se turvava a cada grand jeté. Stephen dançava contra o próprio corpo, usando o choque e a dor como combustível para uma performance aterradora.

​No ápice do ato, quando a música atingiu o clímax dramático, Stephen saltou para a rotação final.

​O tempo pareceu desacelerar no ar. Quando seu pé esquerdo tocou o solo para absorver o impacto, o osso não resistiu.

​Um estalo oco ressoou pelo palco, audível até para as primeiras fileiras. A perna cedeu completamente. O grito de Stephen cortou a nota final da orquestra enquanto seu corpo desabava inerte sobre a madeira fria. O pano de fundo vermelhar misturou-se ao choque mudo da plateia, que levou segundos para entender que aquilo não fazia parte do espetáculo.

​As luzes de emergência da ambulância piscavam contra o teto de gesso do hospital. A transferência para o centro cirúrgico foi um borrão de vozes alteradas, luvas de látex e o som frio de instrumentos metálicos sendo dispostos na mesa.

​— Pressão caindo! Perda sanguínea severa e complicação anestésica! — gritou alguém sobre o bipe acelerado do monitor.

​A equipe médica tentou conter a hemorragia e alinhar a estrutura destruída, mas o quadro espiralou fora de controle. O ritmo do monitor cardíaco começou a desacelerar, mudando de um bip contínuo para um apito longo e linear. O ar sumiu dos pulmões de Stephen. A luz fria do centro cirúrgico foi se apagando lentamente, substituída por um silêncio absoluto.

​Quando os aparelhos finalmente estabilizaram os sinais vitais, o diagnóstico já estava selado.

​No quarto escuro da UTI, resta apenas o som cadenciado e mecânico do respirador. Stephen permanece imóvel, preso em um coma profundo, enquanto a escuridão toma conta de tudo.

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