Ficool

Chapter 2 - O PESO DO SILÊNCIO E A PROMESSA DO ACASO

​A porta do apartamento rangeu ao fechar, um som que parecia ecoar o cansaço que se acumulava na base da minha nuca. O escuro da sala era quebrado apenas pelo brilho intermitente de um letreiro de neon da rua, pintando as paredes descascadas de um rosa doentio. Eu não acendi a luz. Não queria ver o vazio da despensa ou as contas empilhadas sobre a mesa de fórmica.

​Caminhei até o quarto, sentindo cada centímetro do asfalto de São Paulo gravado na sola dos meus pés. O dia tinha sido uma sucessão de "nãos" educados e olhares de soslaio para o meu cabelo vermelho. Levei currículos a hotéis, lavanderias, lanchonetes de bairro — qualquer lugar que não tivesse o cheiro de álcool e desespero do Black Velvet. Mas o mundo diurno parecia ter fechado as portas para alguém com o meu histórico recente.

​Sentei-me na beira da cama, o colchão de molas cansadas protestando sob o meu peso. Comecei o ritual de todas as noites. Primeiro, os sapatos, que saíram revelando bolhas latejantes nos calcanhares. Depois, as roupas, que pareciam pesar toneladas. Fui até o banheiro e encarei o reflexo no espelho manchado.

​A maquiagem estava borrada, sombras escuras sob os olhos que um dia brilharam com expectativa. Peguei o algodão e o demaquilante barato, esfregando a pele com uma força desnecessária, como se pudesse arrancar a sujeira daquela semana junto com o rímel. Quando o rosto ficou limpo, ele parecia pálido, cru, vulnerável demais.

​Voltei para o quarto e me deitei, ainda de calcinha e camiseta, sem forças para buscar um pijama. Meu estômago deu um solavanco, uma dor aguda de fome que eu ignorei. Não havia nada na cozinha que valesse o esforço de levantar, e a fome já era uma velha conhecida, uma hóspede que não pedia licença.

​Virei-me para a parede, onde o reboco estava frio. O silêncio do apartamento começou a ser preenchido pelo som da minha própria respiração, que foi ficando curta, engasgada. A primeira lágrima escapou sem aviso, quente e salgada, trilhando um caminho solitário até o travesseiro.

​— Eu te odeio — sussurrei para o escuro, a voz quebrada, as mãos agarrando o lençol com força. — Seu mentiroso... seu mentiroso maldito.

​Eu não dei nome ao ódio. Não evoquei rostos. Apenas deixei que as palavras saíssem como um expurgo, um veneno que precisava ser drenado para que eu pudesse dormir. Chorei por dez minutos, um choro silencioso que sacudia meus ombros, até que o cansaço vencesse a dor e eu mergulhasse em um sono sem sonhos.

Dois dias depois, Jenny me convenceu a sair.

— Flora, você vai mofar nesse quarto. Vamos tomar uma cerveja num lugar decente, por minha conta. Um amigo meu, o Beto, vai levar um parceiro. Só conversa, eu juro.

A noite na Vila Madalena não era sobre celebração; era sobre anestesia. O bar escolhido por Jenny tinha aquela sofisticação rústica que me fazia sentir como uma intrusa de outro planeta, uma mancha de óleo em um oceano de linho e perfume caro.

As lâmpadas de filamento penduradas no teto lançavam sombras longas sobre a mesa de madeira de demolição. Eu já estava no terceiro chope, e a espuma branca deixava um rastro amargo no meu lábio superior que eu insistia em ignorar. O álcool estava começando a cumprir sua função principal: transformar o pânico constante do despejo em uma dormência morna e suportável.

— Bebe, Flora! — Jenny exclamou, batendo a caneca dela contra a minha. O som do vidro chocando-se pareceu um tiro na minha cabeça levemente zonza. — Hoje a conta é por minha conta, e eu ganhei bem ontem. Vamos fingir que a gente não deve nada pra ninguém por pelo menos duas horas.

Eu sorri, mas o sorriso não alcançou meus olhos. Eu olhei para a caneca, vendo as bolhas subirem. Cada gole era uma tentativa de afogar a imagem do Davis, do bar, do rosto quebrado do cliente, e daquela sensação de ser um nada que eu sentia toda vez que abria a minha carteira vazia.

Beto e Marcos estavam sentados à nossa frente. Marcos era uma presença sólida, quase uma rocha em meio àquela futilidade. Ele me observava com uma curiosidade silenciosa, seus olhos captando o tremor leve nas minhas mãos que eu tentava esconder segurando o copo com força demais.

— Você parece que carrega o mundo nas costas, moça — Marcos disse, a voz grave cortando a risada alta da Jenny. Ele não estava flertando; estava constatando um fato.

— É só o peso de São Paulo — respondi, virando o resto do chope e sentindo o líquido gelado descer rasgando. — Essa cidade tem um jeito de cobrar juros até sobre a nossa sombra.

Pedi um uísque. Puro. Jenny me olhou de soslaio, preocupada, mas não disse nada. Ela sabia que eu precisava apagar as luzes lá dentro. Quando o copo de cristal chegou, o cheiro de turfa e madeira invadiu minhas narinas. Tomei o primeiro gole e senti o fogo percorrer minha garganta, instalando-se no meu estômago vazio. A fome física era uma coisa, mas a fome de segurança, de saber onde eu estaria daqui a uma semana, era o que realmente me devorava por dentro.

— O Beto me falou que você está numa fase difícil com o trabalho — Marcos continuou, girando o gelo no seu próprio copo. — No lugar onde eu trabalho, a gente valoriza quem sabe ficar de boca fechada e manter as coisas em ordem. É uma mansão, dessas que você só vê em filme. O pagamento... bom, o pagamento resolveria todos os seus problemas de uma vez só.

Eu me inclinei para frente, a tontura do álcool dando lugar a uma clareza desesperada.

— Resolvê-los ou apenas adiá-los? — perguntei, as palavras saindo um pouco mais arrastadas do que eu pretendia.

— Resolveria — ele afirmou com uma seriedade absoluta. — Estamos falando de um salário que permitiria que você e sua amiga mudassem para um lugar onde o teto não ameaça cair. Mas aviso: o patrão é um homem que não aceita erros. Ele é... metódico. Silencioso. Se você entrar lá, entra sob as regras dele. Nada de perguntas, nada de intimidade com os outros funcionários, apenas eficiência.

Eu olhei para o fundo do meu copo de uísque. O gelo estava derretendo, diluindo o álcool. Naquele momento, sob o efeito da bebida e do medo crônico, as "regras dele" pareciam um preço pequeno a pagar pela paz de não ter que contar moedas para comprar pão. Eu não queria saber o nome do patrão. Eu não queria saber a história da família. Eu só queria um contrato e um depósito na conta.

— Eu sou ótima em seguir regras, Marcos — menti, lembrando da bandeja que estracelei na cara do sujeito há duas noites. — Eu sou invisível quando preciso ser.

— Então estamos combinados — Marcos pegou o celular, sua postura profissional voltando ao lugar. — Vou enviar seu nome para a governanta, Dona Hannah. Ela é o filtro. Se você passar por ela, está dentro. Me dá seu número.

Nossos dedos se tocaram brevemente quando peguei meu telefone para ditar os dígitos. O toque dele era áspero, de quem lidava com armas e segurança, mas era estável. Eu digitei meu número com o coração batendo na garganta.

A noite continuou em uma névoa de mais copos e risadas forçadas. Por um momento, eu me permiti ser a Flora radiante que a Jenny queria que eu fosse. Dançamos um pouco ao som da música do bar, meus pés latejando nos sapatos velhos, mas eu não me importava. O álcool tinha criado uma bolha de proteção ao meu redor.

Quando o táxi nos deixou na porta do nosso prédio caindo aos pedaços, o efeito da bebida começou a baixar, deixando para trás um gosto de metal e uma melancolia profunda. Subi as escadas me segurando no corrimão descascado, sentindo o peso de cada degrau.

Entrei no quarto e me joguei na cama, sem nem tirar a roupa. O teto parecia girar devagar.

— Por favor... — murmurei para o nada, as lágrimas voltando a arder no canto dos olhos. — Só dessa vez... que seja verdade. Que esse emprego seja a minha saída.

Eu dormi com o celular apertado contra o peito, esperando por um sinal de vida da Dona Hannah.

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