Em Angola, uma criança vivia feliz com os pais… ou pelo menos era isso que acreditava.
A casa era simples. As refeições, por vezes escassas.Mas havia algo ali que o dinheiro não comprava: paz.
Até que as dívidas chegaram.
O pai já não dormia direito. As discussões tornaram-se frequentes.E, numa noite… o inferno bateu à porta.
Homens armados invadiram a casa.Não houve negociação. Não houve misericórdia.
A ordem era clara.
Cobrar.
E ensinar.
O líder da operação observava de longe, com olhar frio e calculista.Mr. Nambulo — o nome que controlava o submundo de Luanda.
— Queimem tudo — ordenou, sem emoção.
O fogo consumiu a casa em minutos.Os gritos desapareceram junto com as chamas.
Silêncio.
Fim.
…Ou quase.
Entre os escombros, havia algo que não deveria estar ali.
Uma criança.
Viva.
Os olhos do garoto não tinham lágrimas.Apenas… vazio.
Mr. Nambulo aproximou-se lentamente.
— Interessante…
Naquele momento, ele não viu um sobrevivente.
Viu potencial.
Não o levou por compaixão.
Levou… porque precisava de alguém que pudesse moldar.
Alguém que não tivesse mais nada a perder.
Assim nasceu Leon.
Não como filho.
Mas como arma.
Dezanove anos passaram.
Leon cresceu longe de qualquer conceito de normalidade.Não houve escola comum. Não houve amigos. Não houve infância.
Houve treino.
Todos os dias.
Combate. Armas. Estratégia. Manipulação. Línguas.
Erro não era corrigido.
Era punido.
Dor era disciplina.
E emoção… fraqueza.
Aos 21 anos, Leon estava pronto.
Ou pelo menos… era o que esperavam dele.
— Hoje vais conhecer o teu parceiro — disse Mr. Nambulo.
O encontro foi marcado num armazém abandonado.
Escuro. Frio. Silencioso.
Perfeito.
Lá estava ele.
Alessandro.
Alto, postura relaxada, olhar arrogante e uma cicatriz no canto dos lábios — alguém que claramente já tinha visto sangue demais.
Assim que viu Leon, soltou uma risada curta.
— Chefia… isso é sério?
Ele aproximou-se, analisando-o como se fosse um objeto.
— Esse miúdo vai trabalhar comigo?
Deu um gole na bebida, despreocupado.
— Eu aposto a minha conta vazia que ele nunca matou ninguém.
O ar ficou pesado.
Então—
Click.
A arma já estava apontada.
Direto na cabeça de Alessandro.
Sem aviso.
Sem hesitação.
Os olhos de Leon estavam vazios.
— Repete — disse ele, com voz baixa.
O sorriso de Alessandro desapareceu por um segundo… mas logo voltou.
— Oh… então o miúdo tem dentes.
— Chega — interrompeu Mr. Nambulo.
Leon hesitou por um instante… mas baixou a arma.
— Nunca duvidem das minhas decisões — continuou Nambulo — Eu sei exatamente o que estou a fazer.
Ele caminhou lentamente entre os dois.
— O alvo chama-se Gedião.
Uma pausa.
— Dono de uma boate. Lavagem de dinheiro. Crescendo… sem a minha autorização.
O tom tornou-se mais frio.
— Ele esqueceu quem manda.
Os olhos de Leon focaram.
Primeira missão.
Primeiro sangue oficial.
— Vocês vão corrigir esse erro.
Nambulo virou-se para Leon.
— Boa sorte.
Leon respondeu sem hesitar:
— Sim… papai.
Faltavam 48 horas.
Alessandro gastava o tempo entre álcool e mulheres.Leon… preparava-se.
Armas desmontadas. Limpas. Recarregadas.
Plano mental repetido dezenas de vezes.
Nada podia falhar.
Nada.
No dia anterior à missão, ele saiu para comprar algumas coisas.
Um mercado simples, em Viana.
Nada fora do normal.
Até que—
Ele esbarrou em alguém.
As compras caíram no chão.
— Desculpa — disseram os dois ao mesmo tempo.
Leon levantou o olhar.
E, naquele instante…
algo quebrou dentro dele.
Uma garota.
Simples. Natural. Diferente de tudo o que ele conhecia.
O coração dele… acelerou.
Errado.
Aquilo estava errado.
Sem dizer mais nada, ele pegou as laranjas e saiu apressado.
Naquela noite, Leon não conseguiu dormir.
Ficou deitado, olhando para o teto.
Confuso.
Irritado.
— Quem era aquela garota…?
O silêncio ecoava.
— E… que sensação foi aquela?
Se aquilo fosse fraqueza…
Então por que parecia tão… forte?
E se, pela primeira vez… Leon estivesse prestes a perder o controlo?
