Resumo:
Entre uma semana e outra, o sangue secou no asfalto, mas a cicatriz ficou no ar. A explosão no galpão foi empacotada como "acerto de contas", os ativistas viraram nota de rodapé estatística e, nas redações apressadas, ninguém teve tempo — ou coragem — de perguntar quem apertou o gatilho de verdade.
Longe das câmeras, porém, algumas perguntas recusam morrer. O que aconteceu com a mente de uma prisioneira que viu sua causa ser esmagada como evidência incômoda? Até onde a ciência é capaz de torcer alguém que jurou derrubar o sistema, mas agora precisa respirar o mesmo ar que ele?
Nesta nova edição, seguimos o rastro dessa queda silenciosa. Nem todo corpo some quando a cena do crime é higienizada; às vezes, o que desaparece é a linha entre vítima e cúmplice. E, nas entranhas do poder, uma nova função espera por quem não teve o privilégio de morrer na primeira leva
Página 1 - Sincronia de Caça
De volta ao escritório, o clima estava mais leve. Vanessa estava corada, meio sem graça, mas rindo. Gabi piscou para ela, cheia de orgulho da própria história.
— Pelo amor de Deus, Gabi... dá pra pular a descrição gráfica da "fisioterapia" com o segurança? Ninguém precisa desse visual.
GABI
(Rindo alto, debochada)
— Ih, qual foi, "Bela Adormecida"? Tá com nojinho? Essa foi a melhor parte da "apuração de campo", amor! O garoto tinha pegada!
Ivan, com uma expressão apreensiva e tentando voltar ao profissionalismo, interrompeu a brincadeira com seu tom de chefe paulista.
— Ladies, foco no business, por favor. Vamos cortar o storytelling erótico. O que interessa é o asset. Cadê a foto?
Gabi se virou, agora com um ar de eficiência, mas sem perder a malandragem da Baixada.
— Papo reto, Chefinho. O Júnior lá da segurança da UPA... digamos que ele ficou muito grato pela minha "consultoria" privada. O homem liberou o acesso às câmeras num piscar de olhos. Foi só dar o zoom e printar a cara do anjinho.
Vanessa olhou para a amiga com pura admiração.
— Tu é incorrigível, Gabi... mas é sinistra. Mandou muito.
Gabi deu de ombros, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
— Respeita a gordinha, bebê. Aqui o jornalismo é raiz.
Ivan já estava com o celular na mão, em modo de ação total, caminhando pelo quarto. A engrenagem começou a girar.
— Right. Action plan, pessoal. Vou startar meus contatos na Civil.
- Tenho um investigador que me deve favores antigos.
- Vamos rodar esse rosto no reconhecimento facial ASAP.
Vanessa também pegou o celular, a energia investigativa de volta.
— Vou varrer o submundo.
- Acionar meus informantes de rua.
- Ninguém some no Rio de Janeiro sem deixar rastro.
Gabi, igualmente focada, digitava rapidamente em seu celular.
— Já tô jogando nos grupos de "Zap" da Baixada.
— Se esse maluco for cria, a fofoca corre mais rápido que bala traçante.
— Em dez minutos a capivara dele tá na mão..
A cena final mostrava os três — Vanessa, Gabi e Ivan — cada um em seu telefone, trabalhando em sincronia.
A caçada começara.
O espírito de Vanessa estava renovado, seus olhos queimando com determinação.
— Bora trabalhar — disse ela, com um sorriso confiante.
Pagina 2 - Promoção: de Prisioneira a Curadora
A porta da Contenção de Herika se abriu.
Dr. Marcos estava lá, calmo.
Ao seu comando, Adriele se aproximou de Herika e lhe ofereceu um jaleco branco.
— Cubra-se, Doutora Rodrigues.
- A ciência exige decoro... e nós temos um cronograma a cumprir.
Herika, confusa, vestiu o jaleco sobre as roupas íntimas.
(Murmurando, tensa)
— "Cronograma"... Vocês falam como se isso aqui fosse uma repartição pública, e não um açougue gourmet.
Ela foi então escoltada pelo trio, Dr. Marcos, Fernando e Adriele por um corredor.
Chegaram à porta da Contenção 244, o cativeiro das preguiças.
Dr. Marcos a abriu a porta desliza utilizando seu Cracha. O cheiro de animais e produtos químicos sai de lá. Ele gesticula como um anfitrião macabro..
— Entre. Considere uma promoção.
- De prisioneira... a curadora.
Herika entrou na sala, ficando cara a cara com as preguiças presas e debilitadas.
— Bem-vinda ao seu novo habitat, minha cara.
- Você acaba de ser nomeada a guardiã oficial do plantel.
Cuide bem das nossas... "preciosas amigas".
Herika encarou o doutor. A bióloga e a ativista estavam em guerra dentro de sua cabeça.
— Qual é a lógica, "Doutor Frankenstein"? Por que eu?
Dr. Marcos assume seu tom de palestra universitária, ignorando a ofensa.
— Como eu elucidei anteriormente... o Projeto EXUS é uma equação complexa com variáveis instáveis. A natureza, às vezes, resiste à nossa... "otimização".
Herika olhou por cima do ombro para Fernando e Adriele, que estavam parados na porta como duas estátuas. A expressão dela era de puro sarcasmo.
(Olhando para as "obras-primas" falhas)
— "Variáveis instáveis"... sei.
— Quer dizer que seus bonequinhos de ação vieram com defeito de fábrica e você quer que eu conserte a bagunça? Bela engenharia genética, hein.
Página 3 - Variáveis do Caos
Dr. Marcos ignorou o sarcasmo dela e continuou a explicação, como se estivesse em uma sala de aula.
— Sua ironia é irrelevante, Doutora.
- O fato é empírico: a fusão interespecífica tem um custo metabólico.
- Nas primeiras iterações... o lado bestial simplesmente anulava o córtex frontal.
Um flashback escuro e violento invadiu a cena.
Uma silhueta híbrida monstruosa e descontrolada destruía um laboratório, rugindo de fúria, antes de ser abatida a tiros pela equipe de segurança.
A cena era brutal.
MARCOS (OFF)
— ...O instinto predatório assumia o controle total.
- Não criamos soldados.
- Criamos monstros raivosos e descartáveis. Tivemos que... "higienizar" o lote inteiro.
De volta ao presente.
— Refinamos a fórmula.
- Ajustamos os supressores hormonais, estabilizamos a agressividade no códice genético.
- Conseguimos a obediência, a lucidez tática.
Mas...Um novo flashback, agora frio e estéril.
Uma cobaia humana, aparentemente normal, estava sendo monitorada. De repente, ela teve um colapso e morreu na cadeira, com sangue escorrendo do nariz, olhos e ouvidos.
MARCOS (OFF)
— ...A fisiologia humana é pateticamente frágil.
- Rejeição sistêmica aguda.
- Falência múltipla de órgãos em sessenta dias.
- O hospedeiro simplesmente... apodrecia de dentro para fora.
O rosto de Herika estava focado.
Ela processava a informação, não como ativista, mas como cientista.
(Pensamento / Sussurro)
— Incompatibilidade imunológica...
- O DNA humano trata o gene animal como um vírus invasor.
- É uma tempestade de citocinas em loop infinito...
Dr. Marcos olhou para Herika com frustração, como se ela fosse a solução para o seu quebra-cabeça.
— Exato. A biologia é teimosa. Um... "pequeno contratempo" na nossa marcha para a perfeição. É frustrante lidar com uma matéria-prima tão obsoleta quanto o ser humano.
Pagina 4 - A Dicotomia da Alma.
Esquerda: A Herika Guerreira. Suja de fuligem, megafone em punho, veia do pescoço saltada, liderando a massa. É o fogo, a paixão, a "Rua".Direita: A Doutora Rodrigues. Jaleco branco imaculado, óculos de grau refletindo dados, postura ereta, analisando um holograma de DNA com fascínio mórbido. É o gelo, o intelecto, a "Academia".Fundo/Centro: Uma sombra negra (a silhueta sutil de Magnus/Marcos fundidos) pairando sobre ambas como um titereiro sombrio.
NARRADOR:
A guerra civil mais violenta não acontece no asfalto do Rio de Janeiro. Ela acontece dentro de um crânio.
HERIKA ATIVISTA
— NÃO SE NEGOCIA COM MONSTRO! ISSO É GENOCÍDIO!
— O sangue deles está nas minhas mãos! É derrubar o sistema ou morrer tentando!
— Resistência!
HERIKA CIENTISTA
— Fascinante... A recombinação de alelos é perfeita.
— Ninguém nunca chegou tão longe. É a Quebra de Paradigma.
— Se eu recusar... o conhecimento morre. Eu preciso ver o resultado.
— Evolução.
NARRADOR:
A consciência grita "Justiça". O intelecto sussurra "Descoberta".
Diante do abismo, a Doutora Rodrigues descobre a verdade mais cruel da ciência: a curiosidade não apenas matou o gato... ela o dissecou para ver como funcionava por dentro.
Página 5 - A Gênese do Paradigma
Dentro da Contenção 244, Adriele acessou um terminal e projetou no telão da cela de Herika a imagem das seis macas cobertas na Sub-Seção C3.
Dr. Marcos parecia exausto.
— A ciência avança por caminhos tortuosos, Doutora.
- Ironicamente, a mudança de paradigma... a gênese do "Projeto Gênesis"... surgiu da mediocridade de uma ex-assistente.
Herika ficou surpresa.
— "Ex-assistente"? Achei que você não dividisse o palco com ninguém, Doutor.
Fernando respondeu com sua voz grave e de forma fria.
— Estagiária. Curiosa demais. Intrometida.
Dr. Marcos lança um olhar lateral cínico para seu segurança, corrigindo-o com falsa polidez.
— Modos, Fernando. Vamos manter o nível.
- Ela foi... um vetor de inspiração involuntária.
— Éh, Fernando. Mais respeito com a nossa... "convidada".
Ele se virou para Herika, a voz carregada de desdém pelos animais que ela defendia.
— A hipótese dela era elementar, quase infantil: focar nos Bradypus. Metabolismo basal lento, resposta ao estresse quase nula. Uma âncora fisiológica para contrabalancear a fúria do soro.
— Genial na teoria... mas, convenhamos, estudar esses bichos é como assistir tinta secar. Uma simplicidade genômica... ofensiva.
Adriele soltou um ronronar de satisfação, divertindo-se com a crueldade do pai.
— Rrrnnn... O Doctor odeia coisas lentas.
- Ele gosta de predadores, não de tapetes peludos.
PAINEL 6 - O Teto de Vidro
Herika, por outro lado, o fuzilou com o olhar.
A bióloga e a ativista dentro dela estavam ofendidas, mas ela entendia a lógica científica por trás da ideia.
O rosto do Dr. Marcos se tornou mais intenso, a paixão doentia pela pesquisa voltando.
— A ideia da estagiária nos deu a base, mas a execução... ah, a execução foi um parto difícil.
- Iniciamos a fase de hibridização cruzada.
- O "Projeto EXUS" evoluindo para o "Gênesis".
Um painel mostrando a tela de um computador exibia uma montagem de resultados de testes genéticos. A compatibilidade subia lentamente, mas nunca o suficiente.
Teste 01: Compatibilidade 0% (Óbito Imediato)Teste 07: Compatibilidade 15% (Falência Múltipla)Teste 231: Compatibilidade 42% (Colapso Neural - FALHA CRÍTICA) MARCOS (OFF)
— Estagnamos.
- A matemática biológica é cruel, Doutora.
- Não importava o quanto refinássemos a pureza do soro... batíamos no teto de vidro dos cinquenta por cento.
De volta ao presente, o rosto do Dr. Marcos estava sombrio com a lembrança.
— E no mundo corporativo... "quase" não gera lucro.
- O nosso investidor anjo... digamos que o Sr. Magnus não lida bem com a palavra "paciência".
Um flashback violento tomou a cena.
O caos explosivo. Mauro Magnus, com o rosto transtornado de ódio, joga um microscópio de 50 mil dólares contra a parede.
Marcos está encolhido no canto, minúsculo diante do titã corporativo.
— ISSO É LIXO! TUDO LIXO!
— Eu não estou queimando milhões pra você brincar de cientista maluco, Marcos! Eu quero uma arma, porra! Se essa merda não funcionar até o fim do mês, eu fecho esse laboratório e enterro você junto com as cobaias!
Herika observava o Doutor, começando a entender a dimensão da pressão sob a qual ele trabalhava.
Dr. Marcos parecia pensativo, a voz carregada com a lembrança da rejeição.
Herika pensou:
"Ele está apavorado. O ego dele é grande, mas o medo do Magnus é maior".
Dr. Marcos suspira, recuperando a compostura acadêmica, varrendo o medo para debaixo do tapete com sua arrogância habitual.
— Enfim... foi apenas outro pequeno contratempo em nossa gloriosa escala evolutiva.
- Nada que não pudesse ser... corrigido.
Página 7 - O Filtro Biológico
Herika estava com sua mente curiosa trabalhando.
A curiosidade da cientista superou momentaneamente o medo da prisioneira.
(Pensamento)
"A variável de rejeição... não estava na fórmula, estava no receptor. O corpo humano é complexo demais, reativo demais. Ele precisava de um filtro biológico..."
Dr. Marcos percebeu a mudança nela, o brilho da curiosidade intelectual.
Dr. Marcos percebe o olhar dela.
É o olhar de "um dos nossos".
Ele sorri, satisfeito.
— Vejo que suas sinapses estão disparando, Doutora. É fascinante, não? A simplicidade da solução.
— Se o hospedeiro humano rejeita a crueza do soro... nós usamos um hospedeiro intermediário para metabolizá-lo. Injetamos o caos no Bradypus, e deixamos a biologia dele fazer o trabalho sujo.
Dr. Marcos se virou para Adriele, que estava em um painel de controle e faz um sinal teatral para ela.
— Minha querida, mostre para a Doutora o resultado do nosso "processamento".
Adriele, com um ronronar de satisfação, acionou um botão.
— Purrrrr... Hora do show.
O telão na cela de Herika mudou para a imagem das oito macas na Sub-Seção C3.
— Os corpos que você está vendo na tela, Doutora... são as primeiras cobaias híbridas — narrou a voz do Dr. Marcos.
A imagem no telão dominou a página. Um braço robótico puxou o lençol da primeira maca.
Embaixo, a criatura foi revelada em todos os seus detalhes grotescos: um protótipo híbrido de dois metros, uma quimera de pesadelo.
A base humanoide tinha uma musculatura poderosa e uma pele esticada, vermelha e sem pelos.
O torso e os ombros eram cobertos por uma carapaça orgânica, uma bio-armadura segmentada que lembrava as placas de um jacaré, mas com um brilho de bronze doentio.
Os braços, longos e desproporcionais, terminavam em garras negras e viciosas, herança da onça.
A cabeça era a fusão mais profana: o rosto de uma preguiça, distorcido em um rosnado de agonia pela morte, mas com orelhas enormes e pontudas, como as de um morcego. Era uma escultura de ambição científica e sofrimento puro.
MARCOS (OFF)
— Eis o "Paciente Zero" da nossa segunda fase.
- Uma obra de arte bruta. O corpo do animal processou o EXUS, absorveu a toxicidade, estabilizou a fórmula... e pagou o preço.
Um close-up no rosto de Herika mostrava seus olhos arregalados, a boca entreaberta.
Uma expressão de puro horror, mas também de uma faísca de fascínio científico.
Ela estava horrorizada, mas a bióloga dentro dela estava... impressionada.
— Meu Deus... Vocês usaram o animal como um filtro vivo. Como uma... refinaria biológica.
Dr. Marcos finalizou sua aula, a voz calma e maléfica.
Fernando calmante entra e entrega uma maleta preta segurando-a como se fosse extremamente sensível e entrega ao Dr. Marcos está maleta preta guarda o maior tesouro dos Laboratórios Magnus,
Dr. abre a maleta preta.
O brilho dourado das vindo de dentro da maleta ilumina seu rosto.
Ele segura uma ampola como se fosse o Santo Graal.
— Exato. Injetamos a fúria, e extraímos a perfeição.
— Antes que a transformação destrua o animal completamente, nós drenamos o plasma enriquecido.
- O extrato puro, estável e divino.
— Apresento a você... o Soro Gênesis.
Página 8 - Quimeras da Dor
Dentro da cela, Herika encarava a maleta com as cápsulas de Gênesis, a mente a mil por hora.
— Gênesis... — sussurrou ela, impressionada.
Seu olhar se desviou, desconfiado, para Adriele e Fernando, que estavam parados como sentinelas atrás do Dr. Marcos.
HERIKA(Pensamento)
"Mas e a Guarda Pretoriana ali? Eles não são monstros de laboratório... eles parecem humanos, mas com 'upgrades'. Se o Gênesis é novo, o que corre nas veias deles?"
Dr. Marcos percebeu o olhar de Herika, a engrenagem girando em sua mente.
Ele sorriu, como um professor que antecipa a pergunta de um aluno brilhante.
— Sua dedução é lógica, mas imprecisa.
- Eles não são frutos do Gênesis.
- Eles são os... veteranos de guerra do EXUS.
— Os únicos dois espécimes em centenas que não derreteram na cadeira.
- Sobreviventes estatísticos.
- O Gênesis ainda não está completo
Um close-up no rosto do Dr. Marcos mostrou a frieza de quem descrevia um fato científico, e não uma tragédia pessoal.
— O Gênesis é a pureza. O EXUS era... invasivo.
- Ele só encontrou ancoragem no DNA deles porque havia espaço. Havia falha.
— Adriele carregava uma discrasia sanguínea terminal.
- Fernando, uma retinose pigmentar agressiva.
Herika o encarou, a mente da bióloga trabalhando freneticamente.
E processou tudo em Pensamento
(Entendi. O EXUS não consegue sobrescrever um código saudável... ele precisa de um erro de sintaxe para se infiltrar.
Ele preenche a lacuna da doença. Ele não cura... ele ocupa o espaço vazio com mutação. É um parasita genético que precisa de um hospedeiro quebrado.)
Um painel sombrio, quase uma citação de um texto sagrado profano, mostrava a silhueta de um ser humano evoluindo para algo maior, mais poderoso.
— Os Gênesis não serão acidentes. Serão o próximo passo natural da evolução. Serão... DEUSES.
Página 9 - A Morte da Inocência
Dr. Marcos aponta para a filha como se apresentasse um carro de luxo.
— Tome Adriele como exemplo. O soro preencheu a falha sanguínea com traços de predadores de médio porte.
Um painel mostrava Adriele em pose de ataque.
Silhuetas fantasmagóricas sobrepostas a ela: a musculatura explosiva da Onça-Pintada, as orelhas alertas do Cachorro-do-Mato, o nariz sensível do Lobo-Guará..
— Hipertrofia das fibras de contração rápida.
- Olfato capaz de isolar feromônios a quilômetros.
- Audição ultrassônica. Ela não é mais humana... é a predadora alfa do ecossistema urbano.
Close em Adriele. O sorriso dela é cheio de dentes demais. Ela passa a língua nos lábios, olhando para Herika como se fosse carne fresca.
— O custo? A psique. O instinto animal não dorme, Doutora.
- Ele sussurra o tempo todo. A humanidade dela é uma capa fina sobre a fera.
Herika a observava, a mente da bióloga catalogando as habilidades.
((Pensamento)Fenótipo comportamental alterado... A agressividade interespecífica virou traço dominante. É uma quimera funcional.)
Dr. Marcos finalizou, a voz carregada com o peso do fracasso.
— Mas é uma cura de aluguel.
- O EXUS degrada com o tempo. Sem as injeções de manutenção, o DNA deles colapsa. Eles vivem com prazo de validade.
Close extremo no rosto de Herika. A iluminação muda, deixando metade do rosto na sombra.O horror se fora.
A raiva se fora.
O olhar de "salvar os animais" sumiu.
O olhar de "eu quero brincar de Deus" acendeu.
(Pensamento)
Instabilidade genômica... claro. Mas e se estabilizarmos a base nitrogenada usando o Gênesis como vetor viral?
É... "interessante". Muito interessante.
Sobreposto ao rosto de Herika, seu pensamento final:
(Acho que posso contribuir com essas pesquisas.)
Close na boca de Herika. Um sorriso torto, frio, espelhando o do Dr. Marcos.
A ativista morrera.
A cientista louca acabara de nascer.
(Sussurro)
— Doutor... acho que temos muito o que conversar. Onde eu assino?
Página 10 - O Legado
Na fortaleza de um rei, toda visita é uma audiência.
E toda audiência... é uma batalha silenciosa pelo poder.
A câmera estava posicionada atrás de Magnus.
As portas duplas da biblioteca se abrem.
O ambiente cheira a dinheiro antigo e mogno, a sala era escura, grandiosa, as paredes forradas de livros do chão ao teto.
No fundo, recortado contra a vista noturna do mar, uma silhueta solitária espera de costas, em frente a uma enorme janela que revelava o mar.
Magnus entra como dono do mundo, uísque na mão.
Close na nuca e ombro da figura na janela.
A tensão corporal é visível.
Sem revelar seu rosto uma voz sai baixa, carregada de anos de mágoa não resolvida de uma história de conflito, quebrou o silêncio.
— Oi, Pai.
A câmera agora estava na frente da figura.
Era JC. Mas não era o "cara gente boa" que conhecíamos.
Aqui, na presença do pai, seu rosto estava duro, os ombros tensos, o olhar era de uma indiferença fria que mal escondia uma vida inteira de revolta.
Ele era um príncipe em exílio forçado, encarando o rei tirano.
— Oi, Pai — repetiu JC.
Magnus entrou na biblioteca, um sorriso de orgulho e sarcasmo no rosto.
Ele saboreou cada sílaba do nome do filho.
— João Carlos de Andrade Magnus... O filho pródigo resolveu honrar a casa com sua presença ilustre?
- Achei que tivesse esquecido o caminho, meu pequeno bolchevique de Ipanema.
JC continua imóvel, braços cruzados, recusando-se a entrar no jogo.
— Corta essa. Foi você que tava me ligando sem parar. Meu celular quase derreteu.
Magnus senta na poltrona de couro capitonê, cruzando as pernas elegantemente. O gelo tilinta no copo. Ele domina o espaço.
— E você, mantendo a tradição familiar de me ignorar.
- Visualiza e não responde. Típico.
- Educação mandou lembranças, João.
Um close-up no rosto de JC mostrou a dor e a raiva visíveis sob a máscara de indiferença.
— Eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo sermão.
- Por que eu atenderia? Me dá um motivo que não seja dinheiro.
Magnus deu um gole em sua bebida, olhando para o filho por cima da borda do copo com uma falsa preocupação paternal e puro desdém.
— Ora... Porque eu sou seu pai.
- E o meu amor por você é... incondicional.
(Pausa dramática)
— E me preocupo com você, ingrato.
Página 11 - A Ilusão de Controle
JC sai das sombras, invadindo o espaço pessoal do pai.
A paciência acabou. Ele tenta soar ameaçador, mas para Magnus, é apenas "fofo".
— Desenrola logo, Mauro. Sem teatro. O que você quer? Eu tenho mais o que fazer do que ficar de plateia pros teus monólogos.
Um close-up no rosto de Magnus revelou a expressão de uma falsa preocupação paternal e com toda calma do mundo sentando em sua poltrona, girando o uísque.
O olhar dele disseca o filho.
É o predador brincando com a comida.
— Calma, tigrão. O papai só quer fazer um catch-up. Saber como anda a sua vidinha... medíocre.
— Ainda brincando de "cidadão comum"? Pegando fila? Comendo bandejão? Deve ser... exótico.
JC se aproximou mais, o dedo quase apontado para o pai. A revolta dele era palpável.
— A minha vida é real, tá ligado? Sem segurança lambendo minha bota, sem gente falsa rindo das minhas piadas porque eu pago o salário. É uma vida livre de você. Sem manipulação, sem controle.
Magnus levou o copo de uísque aos lábios bebe um gole longo, mantendo o contato visual.
E com um sorriso lento e cruel que se desenha no canto da boca.
O silêncio dele grita "você é um idiota".
Close no rosto de JC, que percebeu o sorriso. A desconfiança e a raiva cresceram em seus olhos.
— Qual foi? Tá rindo de quê?
— Desembucha, "Papai". O que você sabe que eu não sei?
Magnus se levantou calmamente da poltrona e caminhou até uma mesinha, onde pegou um controle remoto minimalista.
— Nada, filho.
- Só curiosidade de investidor. Falando nisso... - - como está o seu fluxo de caixa, meu pequeno herdeiro? A mesada está rendendo?
JC tentou projetar uma imagem de calma e segurança, cruzando os braços.
— Minhas finanças tão ótimas.
- Tudo no verde.
- Não preciso do teu dinheiro sujo.
Magnus se virou para ele com um sorriso abertamente debochado, de quem tem o royal flush na mão.
Ele pronuncia errado de propósito para diminuir a profissão do filho..
— Que bom, que bom... E aquela sua nova aventura profissional... como é mesmo o termo? "Trude"?
- Aquele joguinho de apostar na bolsa como se fosse cassino?
Um close-up no rosto de JC, que cerrou os dentes com força para não explodir.
— É Trader, porra. Day Trade.
— E o que te interessa?
- Vai querer comprar a bolsa de valores agora também?
Pagina 12 - A Queda do Mercado
Magnus sentou-se novamente em sua poltrona, com a calma de um imperador. Apertou um botão no controle remoto.
O zumbido mecânico do telão descendo. A biblioteca clássica é invadida pela modernidade agressiva.
Um telão gigante desceu sobre uma das paredes de livros da biblioteca.
Acendeu-se, mostrando um mar de gráficos financeiros em VERMELHO, todos em queda livre.
Os nomes das empresas de JC estavam em destaque, com perdas enormes.
JC estava parado em frente à tela, uma figura pequena e chocada, banhada pela luz vermelha de seu próprio fracasso.
Magnus era uma silhueta em sua poltrona.
— Engraçado... meus analistas me mandaram um relatório diferente agora pouco.
— Hehehe...Heheheheheh...
JC, minúsculo, contra a imensidão do telão.
— ...O quê...?
MAURO MAGNUS (OFF)
— Parece que o mercado está... bearish para você, filhão.
É um mar de setas vermelhas apontando para baixo.
Gráficos em colapso.
O portfólio dele foi dizimado.
A luz vermelha banha o quarto como um alerta de emergência.
Era a expressão de um homem vendo sua vida desmoronar em tempo real.
— Não... Meus ativos... A alavancagem...
— Você... Você sabotou? Você derrubou o sistema? Não... nem você seria tão baixo.
— Seria — respondeu Magnus.
Magnus na poltrona, girando o gelo.
Ele admite o crime como se fosse uma travessura e com um prazer sádico, como se estivesse contando uma anedota.
— "Baixo"? Eu chamo de "correção de mercado".
— Bastou um rumor plantado na CVM, uma venda a descoberto coordenada, um algoritmo agressivo rodando contra suas posições... e voilà. Liquidação total.
JC explode.
Veias saltadas, lágrimas de ódio.
Ele avança, mas para antes de tocar no pai.
— POR QUÊ?!
— Qual é o teu problema, seu psicopata?! Você destrói tudo que eu toco! Você não suporta me ver respirar sem a tua permissão!
A calma de Magnus se quebrou. Ele saltou da poltrona, o rosto transformado em uma máscara de fúria, e ficou cara a cara com o filho, gritando.
— CALA A BOCA, SEU IMBECIL!
— EU NÃO DESTRUI NADA! EU ESTOU TE SALVANDO DA MEDIOCRIDADE!
— VOCÊ É UM MAGNUS! O SEU LUGAR É NO TOPO DA CADEIA ALIMENTAR, COMIGO! NÃO BRINCANDO DE TRABALHADOR ASSALARIADO NESSA VIDINHA DE MERDA!
Tão rápido quanto explodiu, Magnus se acalmou. Ajeitou seu roupão, a voz voltando a ser um sussurro venenoso e cheio de desdém.
— Fica aí... se escondendo atrás desse sobrenome de pobre. "Andrade".
— Patético. Parece nome de quem pega ônibus.
Um close-up final, humilhante.
Close final. A mão pesada de Magnus aperta o ombro de JC.
Não é carinho, Magnus colocou a mão no ombro de JC e um gesto de posse.
— Aceite, garoto. Você é João Carlos Magnus. O sangue é ruim... mas é azul.
— Já passou da hora de parar de fugir do espelho.
Página 13 - O Peso da Coroa
JC explode em movimento, empurrando o peito do pai.
É um gesto desesperado de asco.
Ele limpa o ombro onde Magnus tocou, como se tivesse sido queimado.
— Tira a mão de mim! Não encosta!
Magnus ajeitou seu roupão, impassível, a surpresa dando lugar a um ar de paciência condescendente. Mudou a tática, da fúria para a sedução do poder.
— Calma... quanta hostilidade.
— Filho, olha em volta. Você é meu primogênito.
- O herdeiro do trono. O futuro CEO da maior corporação do hemisfério sul.
Ele gesticulou para a biblioteca, para a mansão, para o mundo lá fora. Um rei oferecendo seu império.
— Tudo isso... os laboratórios, a mídia, os governos no bolso... um dia será seu. Eu construí o castelo, João. Só estou pedindo que você aprenda a segurar a coroa. O império precisa de um rei, não de um trader falido.
Um close-up no rosto de JC mostrou lágrimas de raiva e dor brilhando em seus olhos, mas sua voz era firme, fortalecida pela memória.
— Andrade. Esse é o nome que eu carrego. O nome da minha mãe.
— Ela tinha honra. Ela tinha alma. Coisa que você vendeu faz tempo.
O olhar dele se tornou duro como aço.
— Ela era o oposto de você em tudo. Eu sou JC Andrade com orgulho. O "Magnus" morreu com ela.
Magnus soltou um leve sorriso de sarcasmo, ignorando completamente a carga emocional das palavras do filho.
Para ele, era apenas um capricho infantil.
— Ah, o drama juvenil... Tão tocante.
— Deixa de ser ridículo, filhão. Você não nasceu pra ser gado. Você é o dono do matadouro. É biologia, é destino. O seu legado sou eu. Aceite a herança.
JC virou as costas para o pai, um gesto de rejeição final.
— E virar o quê? Um monstro igual a você?
— Chantagem, suborno, destruir vidas por esporte? Acha mesmo que eu vou manchar minha mão com o sangue que você derrama todo dia? Esquece.
Um close-up extremo nos lábios de JC, de costas para o pai, revelou a última frase em um sussurro, quase inaudível, carregado de um veneno profundo e pessoal.
— ...E tem outra coisa, Mauro.
— Eu nunca vou te perdoar pelo que você fez com ela.
Página 14 - Feridas Não Cicatrizadas
Magnus estava no bar de sua biblioteca, servindo-se de mais uísque, de costas para JC, com uma calma e descontração absolutas.
— Como é? Fala pra fora, garoto. O Papai tá ficando velho, não ouviu o resmungo.
Um close-up no rosto de JC, ainda de costas, mostrou seus olhos se fechando por um instante, reunindo uma vida inteira de dor e raiva.
JC se virou, o rosto transformado pela fúria e pela dor. As lágrimas que brotavam de seus olhos não eram de fraqueza, mas de ódio puro.
Ele apontou um dedo trêmulo para o pai.
— VOCÊ É SURDO OU SÓ FINGE?!
— EU DISSE QUE NUNCA VOU TE PERDOAR POR TER MATADO A MINHA MÃE!
Um close-up extremo na mão de Magnus mostrou o copo de uísque se estilhaçando.
Cacos de vidro, gelo, uísque e sangue escorriam por sua mão.
KRAASH!
O rosto de Magnus.
A compostura, a arrogância, a frieza...
tudo desapareceu.
Em seu lugar, havia um pânico desesperado.
Era a primeira vez que o víamos verdadeiramente descontrolado e vulnerável.
— NÃO! CALA A BOCA!
— FOI UM ACIDENTE! UMA FATALIDADE! EU NÃO TIVE CULPA! VOCÊ SABE DISSO, JOÃO! VOCÊ SABE
Página 15 - Interrupção Grotesca
JC avançou sobre ele, o rosto a centímetros do de seu pai. A voz dele era um veneno.
— Acidente o caramba, Mauro.
— Engraçado como esse "acidente" aconteceu bem na época que você tava pulando a cerca...
As portas da biblioteca se abriram com um estrondo. Bibi surgiu, vestindo uma lingerie provocante, toda saltitante e serelepe, completamente alheia à tensão mortal na sala.
— Ooooi, Tigrão! A tua gatinha já tá no cio e prontinha pra ser castiga...
(Silêncio súbito)
Bibi parou.
O sorriso morreu em seus lábios ao ver a cena: JC furioso, Magnus em pânico, o sangue na mão dele.
JC se virou lentamente. Com o queixo, ele apontou para Bibi, terminando sua frase com uma precisão cirúrgica e cruel.
— ...com ela.
— A sua "secretária" de luxo que virou esposa.
Bibi, agora o centro das atenções, reagiu com indignação. Ela viu a mão de Magnus sangrando.
— Bah, mas que barbaridade é essa?!
— O que esse guri insolente fez contigo, amor?! Olha essa mão, tá jorrando sangue! Credo! Vou chamar os brigadianos agora!
Magnus, tentando desesperadamente retomar o controle, falou com a voz tensa.
— Bibi... sobe. Agora.
BIBI
— Mas tu tá ferido, homem! Tem que ir pro Hemo, dar ponto nisso aí! Não posso te deixar assim!
Magnus perdeu o controle completamente.
A fúria dele se voltou para a única pessoa na sala que ele podia dominar.
— CARALHO, BIANCA! EU MANDEI SUMIR DAQUI!
— VAZA! AGORA!
Bibi arregalou os olhos, aterrorizada.
Ela se virou e correu para fora da biblioteca, chorando.
Bibi recua, chocada. O "Tigrão" mordeu. Ela sai correndo, soluçando, o rímel já começando a borrar.
SFX (BIBI)
— Snif... Buááá!
Página 16 - A Ameaça do Imperador
O silêncio voltou a reinar na biblioteca.
JC encarou o pai, a raiva dele agora substituída por uma calma fria e serena.
— Aí sim. A máscara caiu de vez.
— Esse é o Mauro Magnus "raiz". O monstro instável que eu conheço desde moleque. Sem o verniz da revista Forbes.
Magnus, ignorando-o, caminhou até o balde de gelo no bar e mergulhou a mão ensanguentada ali dentro, o rosto contorcido de dor.
Retirou a mão do gelo e se virou para JC.
A vulnerabilidade se fora.
Em seu lugar, restou apenas a arrogância e a prepotência.
— Escuta aqui, seu merdinha.
— O recreio acabou. Ou você assume seu posto ao meu lado, ou eu vou continuar transformando essa sua vidinha medíocre num inferno na terra.
Um close-up nos olhos de Magnus, queimando com ódio.
— Tudo o que você tocar, eu vou demolir. Carreira, amigos, reputação...
— Eu vou te moer até você voltar rastejando pra lamber o meu sapato e pedir mesada, seu bosta.
JC não se abalou. Caminhou calmamente em direção à saída, passando pelo pai. Sua voz era cheia de uma confiança sombria.
— Tenta a sorte, Mauro.
— Mas pra me parar de verdade... tu vai ter que fazer comigo o mesmo que fez com a minha mãe.
JC sai. Magnus fica sozinho na penumbra, olhando o corte profundo na mão.
A raiva pulsa na têmpora dele.
Enquanto olha para o corte em sua mão.
Sua expressão era de pura fúria contida.
— Paga pra ver... moleque insolente.
Com toda fúria que sentia naquele momento ele gritou não melhor ele invocou a presença de seu escravo pessoal o mordomo.
— Jonas.
— Traga o kit de sutura e álcool para a biblioteca.
- Tivemos um... pequeno acidente doméstico.
Página 17 - O Fantasma Digital
Enquanto isso o pessoal da Rede News está a todo vapor na caça do Anjo.
Delegacia da Civil.
Ambiente sujo, pilhas de papel. Ivan, impecável em seu terno, destoa do ambiente ele conversava com seu informante.
Ele passa um arquivo via zap para o celular Investigador ("Freitas") com olheiras profundas e ar de policial cansado.
O policial olhou a coçou a cabeça e disse pra Ivan:
- Marca um Dez ai que eu já volto,
Ivan apenas acenou com a cabeça um sinal de positivo.
O Investigador Freitas retornou 20min depois incrédulo.
— Doutor Ivan... papo reto? Esse maluco aí é gasparzinho.
IVAN Retruca
— Checa de novo, Freitas. Meus inputs são confiáveis. O sujeito existe.
Investigador Freitas (abismado
— Rodei CPF, RG, reconhecimento facial... O sistema tá me dando vácuo.
Um close-up na tela do computador do policial exibia um grande "NADA CONSTA".
— A ficha dele é um deserto. Nada. Nem uma multa de trânsito, nem um nome sujo no Serasa, nem BO de briga de bar.
— No Rio de Janeiro? Ficha limpa desse jeito é mais suspeito que ficha suja, meu nobre. O cara é um fantasma.
Investigador Freitas passa discretamente um pedaço de papel de pão amassado com uma anotação rabiscada.
INSPETOR XANDE
— Mas ó... dei uma cavada no sistema antigo, nos arquivos mortos.
- A única ponta solta que achei foi isso aqui. Vê se ajuda.
IVAN
— Great. Valeu, Xande. O cafézinho tá na conta de sempre.
Corte para a redação da Rede News.
Vanessa, agora sem o gesso, mas ainda mancando um pouco, desligou o celular com força.
A frustração era evidente em seu rosto.
— Que inferno!
— Meus contatos de rua tão cegos. Ninguém viu, ninguém sabe. O cara evaporou.
Ela levanta, testando a perna. A determinação volta.
— Beleza. Se o digital falhou, a gente vai pro analógico.
- Vou gastar sola de sapato e achar esse "fantasma" na marra.
Ivan entrou na sala de Vanessa, contente, segurando o papelzinho que o investigador lhe dera.
— Hey, Redhead.
— Trouxe um gift pra melhorar seu humor.
Vanessa se virou para ele, a atitude ríspida e desconfiada.
— Se for chocolate ou flores, pode dar meia volta, Ivan.
— Eu não tô no clima pro teu teambuilding romântico hoje.
Página 18 - Tensão e Interrupção
O rosto de Ivan se fechou.
A frustração dele, contida até agora, explodiu em sua fala direta e paulistana.
— Pô, Vanessa... qual é a sua, meu?
— Sério. Desde que você saiu do estaleiro é só patada, só block.
- Eu tento fazer o approach, ser gentil, e você me corta na raiz.
— Não quer mais saber de mim? Fala logo. Porque, na boa, meu... tá foda de lidar.
A raiva de Vanessa se dissipou, dando lugar à exaustão e à culpa. Ela virou o rosto.
— Desculpa, Ivan... Não é você. Sou eu.
— Eu tô pilhada. Minha cabeça não para.
Um close-up no rosto dela mostrou a dor da perda e do fracasso profissional.
— Perder o material foi um golpe... mas saber que gente morreu pra eu conseguir aquele furo que não dei... isso tá me comendo por dentro.
- Eu nunca perdi uma pauta desse jeito.
O olhar de Ivan se suavizou. Ele se aproximou dela por trás, enquanto ela olhava pela janela.
— Eu entendo, ruiva. O stress level tá lá no teto.
Ele a abraça pela cintura, o queixo no ombro dela.
Voz mansa, oferecendo o mundo (e a banheira dele).
A voz dele era um sussurro sedutor.
— Mas ó... eu tenho a solução pro burnout.
— Que tal lá em casa hoje? Um vinho bom, aquela hidro master ligada, eu fazendo uma massagem... Topa o after?
Vanessa fechou os olhos, cedendo ao toque, à promessa de um alívio momentâneo.
(Pensamento)
"Uma hidro quente... desligar o cérebro por duas horas... Deus, eu preciso disso".
Ela se virou nos braços dele, o rosto próximo ao dele, prestes a beijá-lo.
A porta do escritório foi escancarada com um estrondo.
Gabi invadiu a sala, eufórica. Ivan e Vanessa se separaram no susto.
BLAM!
GABI (OFF)
— BOMBA! BOMBA! PARA TUDO!
Página 19 - A Pista Quente
Gabi, parada na porta, percebeu a "cena de quase beijo".
Sua expressão de euforia se transformou em uma de surpresa e sarcasmo.
Ivan e Vanessa se afastaram, completamente sem graça.
— Eita, glória... O clima tá tenso ou é impressão minha?
— Atrapalhei o love ou cheguei na hora do salvamento?
Um painel dividido mostrou as reações opostas e simultâneas.
Lado esquerdo: Vanessa, aliviada.
— Não!
Lado direito: Ivan, visivelmente frustrado.
— Sim.
Vanessa, tentando retomar o controle da situação, ajeita a blusa, recompondo a postura de repórter séria. cruzou os braços.
— Foco, gente. O que vocês querem na minha sala? Reunião de pauta surpresa?
Ivan estendeu o pequeno pedaço de papel para Vanessa. Gabi, no entanto, se adiantou, a euforia tomando conta do ambiente atropela ele com a energia de um trio elétrico..
IVAN
— Vanessa, a minha fonte na Civil me passou esse...
GABI
— Amiga, esquece a papelada! O bagulho é doido!
— Tenho uma pista quente do teu "Anjo"! Um dos meus contatos jurou que conhece a figura!
Vanessa encarou a amiga com um olhar desconfiado e divertido.
Distraída pela euforia de Gabi, ela pegou o papel de Ivan sem dar importância e o jogou na bolsa.
(Pensamento)
" Depois eu vejo isso. Deve ser mais um convite pra jantar ou poesia ruim."
Vanessa se virou para Gabi, focando na pista real.
— Um dos seus "contatos"... ou um dos seus "crushs"?
Gabi caiu na gargalhada.(Rindo alto)
— Detalhes, amor! O que importa é que a informação procede!
— O garoto tá aqui do lado, no Shopping. Marquei com ele pra agora.
Vanessa franze a testa parecia apreensiva com a pressa e foi pega de surpresa..
— Shopping? Agora? Mas pra que eu tenho que ir? Você não desenrola isso sozinha?
Gabi eufórica e muito excitada
— Ah, para! O cara disse que conhece o sujeito da foto pessoalmente.
- Tu quer o furo ou não quer?
— Levanta essa bunda branca daí, mulher! A verdade tem pressa!
Ivan, aproveitando a deixa para sair da situação embaraçosa, assumiu seu papel de chefe.
— Good call. Vão lá fazer a checagem in loco.
— Eu fico no QG. Tenho uns calls pra fazer.
Gabi já estava puxando Vanessa pelo braço em direção à porta.
— Partiu, Cinderela! Se arruma no caminho! O "furo" não espera e nem o boy
Página 20 – O segredo do Lixão
Naquele exato momento por volta do Meio-dia.
Para a cidade, a noite de fúria é apenas mais uma memória suja a ser varrida pela manhã.
Um Beco, Sol a pino, cheiro de urina e lixo azedo. Um morador local, jovem e curioso, ao jogar seu lixo fora em um viela percebe algo diferente.
Close no chão. Uma mão humana pálida e suja desponta debaixo de sacos pretos rasgados.
O jovem pega um pedaço de madeira podre, com medo e cutucou a mão com a ponta.
— Coé, parceiro...
— Ei, maluco... Tu tá vivo aí ou já virou adubo?
Um gemido abafado veio de dentro do lixo.
Huuuummmmm...
O Jovem reage surpreso
— Eita porra... Tá vivo.
— Oh, chefia... precisa de um help? Ou tá só na soneca?
A voz respondeu.
— Oi. Você poderia me ajudar aqui?
A revelação.
O jovem rapaz puxou os sacos.
Era JC que estava debaixo daquela pilha de lixo e sujeira.
Parecia que ele tinha sido atropelado por um caminhão e jogado num moedor de carne: roupas em frangalhos, cobertas de sangue seco e fuligem.
MAS O CORPO ESTÁ PERFEITO.
— ...Valeu, irmão. Tava difícil respirar aí embaixo.
A grande revelação tomou a página inteira.
JC levanta, sacudindo cascas de banana e papelão. O rapaz ainda não acredita no que vê (sangue nas roupas x pele limpa).
O rapaz, chocado, ajudara a tirar o lixo de cima.
JC sentou-se no chão.
JC fez um panorama de sua situação.
Suas roupas estavam em farrapos, rasgadas e cobertas de sangue seco.
Mas seu corpo estava perfeitamente intacto.
Não havia um único arranhão, corte ou hematoma em sua pele.
Ele parecia confuso e perdido, mas fisicamente ileso. O rapaz o encarava, de boca aberta, sem entender a cena impossível à sua frente.
JC se levantou, olhando para o estado de suas roupas.
O rapaz assustado e impressionado o questionou!
— C-caraca, mané... O senhor tá bem mesmo?
— Tu tá coberto de sangue, doido.
- Não quer que eu chame o SAMU?.
JC o encarou, a expressão séria.
— Não precisa.
(Pausa séria)
— Eu não tô bem, não.
O Rapaz apreensivo
— P-por que?! Tá doendo onde?!
JC se cheirou e fez uma careta de nojo.
Sua resposta foi irônica, o humor de quem acordou de um pesadelo e não entendia nada.
— Porque eu tô fedendo a chorume, mermão.
— Puta que pariu... parece que eu dormi abraçado com um rato.
Olhou ao redor do beco, a confusão estampada em seu rosto.
(Pensamento)
Que onda errada foi essa? Como é que eu vim parar na lixeira? Eu tava... onde eu tava?
O Rapaz prestativo tentando ajudar um estranho.
— O senhor... quer alguma coisa? Uma água?
JC olhou para suas roupas rasgadas e sujas.
— Quero.
— Um banho. E saber que dia é hoje.
Página 21 - A Estética do Cyberpunk
Cyber Café "Player One". Onde a nostalgia e o futuro tomam um milkshake juntos.
Uma tomada ampla de um Cyber Café revelava o lugar como uma mistura louca e fascinante: balcões e bancos de lanchonete dos anos 50, com garçonetes vestidas em estilo retrô e outras com roupas futuristas.
Fliperamas dos anos 80 piscavam em um canto, enquanto em outro, jovens jogavam em PCs de última geração.
Plano geral do Cyber Café "Player One".
É um delírio visual: piso xadrez preto e branco, jukebox neon tocando synthwave, garçonetes de patins servindo milkshakes ao lado de fileiras de PCs alienígenas com LED RGB.
Nerds de todas as tribos coexistem no caos organizado.
Vanessa e Gabi entraram.
Gabi estava de olhos arregalados, adorando a atmosfera.
Vanessa, por outro lado, parecia um peixe fora d'água, analisando o lugar com desconfiança.
— Jesus amado... Que buraco é esse?
— Cheira a plástico queimado e virgindade. É bem coisa de nerd mesmo.
Gabi deu um empurrãozinho de leve na amiga, toda animada.
— Ih, deixa de ser chata, Ruiva! Sente a vibe! É cult, é retrô, é... uhuuu! Maior barato!
— Tu precisa sair mais da redação, "tia".
Vanessa não se deixou levar. Cruzou os braços, impaciente.
— Foco, Gabriele. Cadê o tal do informante "quente"?
— Espero que não seja um adolescente jogando Minecraft.
Relaxa mona (gabi curtindo em seu modo 'god vibes').
— Relaxa, o cara é a lenda do submundo digital.
— Ó ele ali no balcão, disfarçado de civil.
No balcão, a silhueta de um homem magro, de cabelo cacheado, estava totalmente focada em seu milkshake.
VANESSA
(Pensamento)
"Ainda bem. Vamos acabar logo com isso antes que eu pegue uma alergia a poeira".
Gabi abriu um sorriso e chamou pelo apelido, a voz cheia de uma intimidade animada.
— TOTOZINHO!
— É você mesmo, meu xuxu higth-tech?!
Um close-up no rosto de Vanessa mostrou sua expressão de pura incredulidade e vergonha alheia, Olhos fechados, mão na testa.
VANESSA
(Pensamento)
"'Totozinho'? É sério isso, Gabi? Eu vou matar ela".
A câmera focou no homem no balcão.
Ele parou de tomar seu milkshake.
Lentamente, começou a se virar na banqueta para encarar as duas.
A revelação do grande Valtinho era iminente.
Página 22 - O Avatar Exótico
Valtinho virou-se na banqueta.
Um sorriso malicioso no rosto.
Gabi o encarava com a mesma energia.
— Totozinho! Que saudade, seu nerd safado!
VALTINHO
— Gabi, minha user favorita!
— Achei que tinha feito upgrade pra um modelo 2.0.
- Mas vejo que ainda curte o hardware clássico, né? Vintage tem seu valor.
Gabi o abraçou com força.
Ele retribuiu, a mão descendo um pouco mais do que o profissionalmente aceitável nas costas dela.
GABI
— O original é raiz, bebê. Nunca dá tela azul na hora H.
— Mas ó, foca aqui. Trouxe visita. Essa é a Vanessa, minha parceira de crime.
Valtinho virou-se para Vanessa.
Ele a scaneou de cima para baixo, com um olhar preciso de um exterminador do futuro.
Estendeu a mão e aproveitou seu lado galanteador-geek..
— Opa... E você deve ser a placa de vídeo de alta definição da equipe.
— Valter Gomes, ao seu dispor. Mas no servidor a galera chama de Valtinho.
— Meus specs são impressionantes, eu garanto. Alta performance. Wink wink.
A visão de Vanessa: ao apertar a mão dele, seu olhar, quase que por magnetismo, desceu para a calça justíssima dele.
Seus olhos se arregalaram. Não havia como não notar.
Um close-up no rosto corado de Vanessa mostrou que uma expressão dubia, sem saber se ficava ofendida, assustada ou... curiosa.
Narrador
( O "volume" é uma entidade à parte. É impossível ignorar a "armazenagem extra" ).
VANESSA(Pensamento)
"Meu Deus do céu... Aquilo é... anatomia ou ele escondeu um microfone boom na calça?Ele... ele não tava falando de memória RAM, né?"
Vanessa puxou Gabi para um canto, sussurrando com fúria e vergonha.
— Gabi, que porra é essa?!
— Esse cara é teu informante ou tu achou ele num site adulto de cosplay? O sujeito é uma assédio ambulante!
Gabi ri, cobrindo a boca, se divertindo com o puritanismo da amiga.
— Relaxa a militância, Vanessa! O Valtinho é inofensivo... na maior parte do tempo.
— O HD dele é gigante, eu sei... mas o processador é melhor ainda. O moleque é um gênio. Deixa ele trabalhar.
Página 23 - A Guilda do Mercado
Os três estavam em uma mesa.
Valtinho suga o milkshake fazendo barulho.
Gabi vai direto ao ponto.
— Desenrola, Totozinho. Sem lag.
— A gente precisa achar o maluco da foto.
- Tu disse que conhecia a peça.
- Procede ou é fanfic?
Valtinho limpa o canto da boca, teatral.
— Procedência verificada, minha cara.
— Vocês estão na Main Quest para achar o Lorde JC, o Paladino perdido.
Vanessa bate a mão na mesa. A paciência esgotou no "Paladino".
— Ah, sim. A quest para encontrar o Lorde JC, o paladino perdido da Zona Sul — respondeu Valtinho.
Vanessa, tentando ser a profissional, interveio, já irritada.
— Chega de RPG, garoto. O nome dele é JC? Só isso?
— Isso é jornalismo investigativo, não é rodada de Dungeons & Dragons. Leva a sério.
Valtinho deu uma sugada no milkshake, olhando para Vanessa por cima do copo com um sorriso divertido.
— Uia... Que agressividade no servidor.
— Cuidado com o overclock, gata. Muito estresse causa lag no processamento.
— Mas confesso... curto esse estilo "Valquíria em modo PvP". Hot.
Gabi interveio, tentando acalmar Vanessa, que parecia prestes a explodir e coloca a mão no ombro de Vanessa, sentindo a tensão muscular da amiga.
— Nessa, baixa a guarda! O nerd é assim mesmo, ele fala em código.
- Respira e não mata a fonte.
VANESSA(Trincando os dentes)
— Tá... Desculpa. Só... continua.
Valtinho se inclinou sobre a mesa, com um ar de especialista em "diagnóstico médico".
Apontou discretamente com o queixo, passeia o olhar pelo corpo de Vanessa com malícia.
— Se me permite uma análise técnica do sistema...
— Essa sua tensão toda, essa irritabilidade no boot... é claramente erro de interface.
Close nas mãos de Valtinho fazendo o gesto universal (e obsceno) de conectar um plugue macho numa entrada fêmea.
— Falta de... conexão. De input no slot. Entende?
Ele fez um gesto sutil, mas inconfundível, com as mãos, como se estivesse conectando um cabo USB.
— Se precisar de um Suporte Técnico com cabo reforçado... o Admin aqui tá on-line 24/7. Wink.
Vanessa estava com os punhos cerrados sobre a mesa, pronta para cometer um crime.
Gabi tentava muito não rir.
Valtinho volta ao milkshake, orgulhoso da cantada horrível.
SFX (VALTINHO)
HUEHUEHUEHUE (Risada anasalada)
Pagina 24 - Colapso de Interface
A cena explodiu.
Vanessa tentou pular sobre a mesa para esganar Valtinho.
Gabi a segurou pela cintura, usando todo o seu peso para contê-la.
Valtinho apenas reclina a cadeira gamer, sugando o canudo, imune ao perigo.
VANESSA
— EU VOU FORMATAR A CARA DELE NA PORRADA! ME SOLTA, GABI!
GABI
— SEGURA A ONDA, VANESSA! A PERNA, MULHER!
— É FONTE! A REGRA É CLARA: NÃO PODE MATAR A FONTE!
Gabi, suando, consegue sentar Vanessa à força na cadeira. Valtinho ri com aquele som anasalado irritante.
SFX (VALTINHO)
Hneh-hneh-hneh!
GABI
— Ufa... Trégua! Bandeira branca!
— Ninguém mata ninguém.
- Vamos pedir um suco de Maracujá, pra ela se acalmar e focar na missão.
— Beleza, trégua! Vamos acalmar os ânimos. Pedir um café, respirar. Foco na missão, galera — disse Gabi, ofegante.
Corte temporal. Vanessa toma um suco de Maracujá, fuzilando Valtinho. O instinto repórter vence o ódio.
A paz (tensa) reinava. Vanessa, ainda fuzilando Valtinho com o olhar.
— Uma pergunta técnica... só pra eu entender a dinâmica do hospício.
— Como raios vocês dois se conheceram? Tinder da Deep Web?
Gabi se animou para contar a história.
GABI
— Que nada! Foi trabalho de campo pesado.
— Eu tava infiltrada numa operação pra derrubar uma máfia de hardware pirata na "Arte Tecnologia".Eu era a isca.
Valtinho ajeita os óculos, orgulhoso do passado criminoso.
— E eu era o Head de P&D... Pesquisa e Desenvolvimento.
— A Gabi entrou como minha secretária executiva.
- Disfarce impecável.
- E modéstia à parte... a melhor que já tive.
- Performance otimizada. Wink.
Gabi olhou para Valtinho com um olhar malicioso e dá um tapinha carinhoso na mão dele.
— O moleque é tarado, mas é gênio.
- Ele hackeou os livros caixa da própria empresa e me entregou tudo de bandeja.
- Botamos a diretoria inteira em cana.
Gabi bateu na mesa de leve, quebrando o clima.
Fim do storytelling.
GABI
— Mas corta o flashback.
- Totozinho, foco no main event.
— Quem é o cara da foto? Tu disse que conhecia.
Valtinho assumiu um ar de quem detinha uma informação valiosa.
— Ah, o Lorde JC...
— Ele é um fellow da nossa Guilda. Um dos players mais agressivos do nosso grupo de Day Trade. O cara operava pesado.
Close triplo.
Vanessa e Gabi tensas.
Valtinho segurando a chave do mistério.
VANESSA
— "Grupo de Trade"?
— Valtinho... isso é sério. Onde a gente encontra ele?
Página 25 - Acesso Negado
Valtinho assumiu um ar sério, quase corporativo.
Valtinho cruza os braços.
A postura é de "Admin do Servidor".
Ele leva a segurança de dados a sério (quando convém).
VALTINHO
— Negativo.
- Sem home address no banco de dados.
— Nossa guilda opera na sombra.
- Comunicação via grupo de "Zap" criptografado.
- Tudo off the record.
Vanessa se inclinou para a frente, a repórter em ação.
— Valtinho, colabora.
- Me coloca nesse grupo.
- Ou passa o número dele direto.
— Isso é caso de vida ou morte.
- Literalmente.
Valtinho balançou a cabeça, firme.
— Access Denied, Ruiva.
— Política de privacidade da Guilda.
- O grupo é Closed Beta.
- Passar dados pessoais sem consentimento viola a LGPD e o Código de Honra dos Nerds.
- Sem chance.
Gabi mudou de tática. Ela se inclinou mostrando um pouco de seu generoso decote, a voz um sussurro sedutor e tocou o braço de Valtinho.
— Mas ó... tu podia mandar um ping pra ele agora, né, Totozinho?
— Vê se ele libera o acesso... Faz esse favorzinho pra tua fofuxa favorita, vai...
Vanessa revirou os olhos com uma expressão de puro nojo.(Pensamento).
"Fofuxa"... "Totozinho"... Alguém me dá um saco de vômito, por favor.
Valtinho suspira, triste de verdade por negar algo a Gabi.
— Poxa, Fofuxa... eu queria muito.
— Mas o player tá AFK (Away From Keyboard).
- Tem semanas que o JC não loga, não visualiza, não dá sinal de fumaça.
- O cara virou ghost..
Vanessa e Gabi se encararam, apreensivas.
A pista parecia ter morrido.
Beco sem saída.
De repente Valtinho dá um pulo na cadeira, estalando os dedos. A lâmpada acendeu.
— AH! Mas peraí!
— Loading memory... Lembrei de um item perdido no meu inventário de missões
Página 26 - A Side Quest
Valtinho estava animado, a esperança voltou.
— A gente tem uma Side Quest marcada pra hoje! Resenha da Guilda!
— É num boteco no Centro. O JC tinha dado confirm no evento antes de sumir.
- A chance de respawn dele lá é alta.
Vanessa agarra a mão de Valtinho (ignorando o nojo) olhos focados o fogo reacendeu instantaneamente, a alma da repórter estava de volta ao jogo.
— Valtinho, isso é ouro.
— Passa as coordenadas.
- Nome, endereço, horário. Agora.
Valtinho, ainda desconfiado, anotou o endereço em um guardanapo e o deslizou pela mesa.
(Pensamento)
" O que será que essas NPCs querem com o JC? Cobrança? Pensão? Ou ele desbloqueou alguma DLC proibida?"
Gabi se levantou, mandando um beijo para Valtinho.
— Valeu, Totozinho! Tu é o melhor player desse jogo!
— A gente se vê no lobby mais tarde! Mwah!
Exterior. Já fora do cyber café na Calçada movimentada do shopping.
As duas Vanessa e Gabi andando rápido. Vanessa não aguenta mais segurar.
— Gabi, papo reto...
— "Totozinho"? "Fofuxa"? Você tem noção do nível de vergonha alheia que eu passei lá dentro?
Gabi sorri, olhando para o horizonte, nostálgica e safada.
— Ah, amiga... relaxa.
- Eu sei que ele não é nenhum Cauã Reymond.
- O estilo é... exótico.
— Mas vou te falar o papo reto: o garoto tem um "periférico" ali embaixo que... Misericórdia.
- É tecnologia alienígena.
- Nunca vi nada igual na vida.
Vanessa para no meio da rua.
A ficha cai.
A imagem da calça justa volta à mente.
— Peraí...
— Você tá falando da... da anaconda que ele tava contrabandeando naquela calça boca de sino?!
Um close-up no rosto de Vanessa mostrou uma mistura de horror e uma risada que ela não conseguia segurar.
— Puta que pariu, Gabi!
— Aquilo tinha vida própria! Parecia que ele tava escondendo um extintor de incêndio na cueca!
As duas caíram na gargalhada, um momento de alívio e descontração em meio à caçada.
SFX
HAHAHAHAHAHAHAHA!
Página 27 - A Chave do Carcereiro
Dentro da Contenção 244.
Dr. Marcos estava na porta, o rosto sereno.
Fernando e Adriele o aguardavam.
Ele se dirigiu a Herika, que o encarava do meio da sala.
— Vou deixá-la a sós para se familiarizar com o... "ambiente de trabalho".
— Estude os espécimes.
- Entenda a dor deles.
- E, por favor, não tente arrombar a porta.
- É aço reforçado.
— Crianças, comigo.
A porta de aço se fechou com um baque pesado e final. Herika correu até ela, mas era inútil.
THOOOM!
HERIKA
— Ei! Espera!
— Droga... Trancada com a chave. De novo.
Um dos monitores da sala se acendeu na frente dela, exibindo uma única linha de texto: [INSIRA SUA SENHA].
HERIKA
— Senha? Que senha? Eu acabei de chegar, palhaço!
A voz do Dr. Marcos, metálica e sem emoção, ecoou de um alto-falante no teto.
— Sua credencial é GEN-244, Doutora.
— O banco de dados está aberto.
- A ciência não espera. Bom turno.
Click.
Ouve-se um clique, e a comunicação é cortada.
No corredor, enquanto caminhavam de volta, Adriele e Fernando questionavam o Doutor.
FERNANDO
— Doutor. Permissão para falar.
— Liberar acesso root para um ativo hostil... Avaliação de risco: Altíssima.
ADRIELE
— Rrrnnn... O brutamontes tem razão, Doctor.
— Ela é esperta. Arisca. Dar a chave da cela pra presa... pode ser um erro fatal.
Laboratório Principal.
Marcos senta na poltrona, girando para encarar os monitores. Na tela, Herika digita a senha, hesitante.
Um close-up no rosto de Marcos, iluminado pela tela.
Um sorriso frio, inescrupuloso e calculista se formou em seus lábios.
— Risco calculado, meus queridos.
- A curiosidade dela é maior que a lealdade à causa.
— Como o Sr. Magnus adora repetir em suas palestras motivacionais: "Todo mundo tem um preço". O dela não é dinheiro... é conhecimento.
O olhar dele se desviou para seu smartphone, que ele deixara aberto sobre a mesa.
A tela estava acesa, mostrando a foto de um Dr. Marcos mais jovem, abraçando uma Adriele criança, ambos felizes.
Um fantasma de um passado que talvez nunca tivesse existido de verdade.
Narrador
(E ali, congelado em pixels de baixa resolução, jaz o último vestígio de humanidade naquela sala.
O pai que sorria para a filha nos ombros... e o monstro que agora a observa através das câmeras.
O verdadeiro horror não está nas jaulas ou nas garras.
Está na distância intransponível entre quem ele era... e o que ele se tornou para salvá-la.)
Página 28 - Acesso Concedido
Dentro da Contenção 244.
Herika se aproximou de uma das celas das preguiças.
O vidro estava opaco, impedindo uma visão clara do estado do animal lá dentro.
Ela colocou a mão no vidro, a impotência visível em seu rosto.
HERIKA
— Aguenta firme, garota... Eu vou tirar a gente dessa. Eu prometo.
A voz do Dr. Marcos ecoou novamente, fria e insistente, vinda de um alto-falante.
MARCOS (OFF)
— Menos sentimentalismo, Doutora. Mais eficiência.
— O turno começou.
Herika se virou e encarou o terminal de computador central.
Havia um momento de conflito intenso em seu rosto.
NARRADOR
"A mão que segurava o cartaz de protesto agora paira sobre o teclado.
O dilema moral dura exatamente três segundos."
A cientista venceu.
Com uma expressão de resignação e uma curiosidade inegável, Herika se sentou em frente ao computador e digitou a senha.
Close nos dedos digitando. O som das teclas é seco e rítmico.
USER: H.RODRIGUES
PASS: ****
> ACCESS GRANTED
A tela ganhou vida, inundando o rosto de Herika com sua luz.
Uma interface complexa, cheia de dados biológicos, sequências de DNA e os controles de todas as celas da sala.
Uma mensagem piscava: ACESSO TOTAL CONCEDIDO.
Um close-up extremo no rosto de Herika dominou a página, iluminado pela tela.
Seus olhos, antes cheios de raiva e medo, agora brilhavam com uma luz completamente diferente.
Era uma mistura de fascínio, ambição e uma terrível vontade.
O reflexo do código genético e dos dados complexos dançava em suas pupilas.
Um sorriso mínimo, esquisito e quase alienígena começou a se formar em seus lábios.
Naquele instante, a ativista que lutava contra monstros morreu... e assim, nasce uma nova aliada.
Não para o homem... mas para a monstruosidade.
NARRADOR
( E assim, no silêncio asséptico da Contenção 244, ocorre a morte mais triste desta guerra.
Não com um tiro, mas com um clique.
A ativista que lutava contra os monstros desaparece... absorvida pela beleza terrível da equação.
Diante do quebra-cabeça perfeito, ela esquece de que lado do vidro ela está.
A paixão morre.
A lógica nasce.
E a ciência, finalmente, devora a alma.)
Página 29 - O Nome no Papel
Um bar no Centro. Noite.
A caçada continua. Mas, às vezes, a presa não aparece no local combinado...
Barzinho no Centro do Rio ("Lapa Gourmet").
Muita gente bonita, música alta, luz baixa.
Vanessa e Gabi ocupam uma mesa de canto.
Vanessa tamborila os dedos na mesa, uma bomba-relógio de ansiedade.
Close no rosto de Vanessa. Ela olhou para a porta pela décima vez, a impaciência e a frustração estampadas em seu rosto.
— Que merda. Mais um beco sem saída.
— A nossa "melhor chance" furou. O cara não vem.
Gabi, mais relaxada,com um drink colorido na mão, escaneia o salão como um radar de crushs.
Em seguida fez um sinal para o garçom.
— Relaxa o corset, Nessa.
- A noite é uma criança e o Centro tá um buffet de homem bonito.
— Desliga o modo repórter e liga o modo "solteira no Rio". Vamos beber.
Vanessa, agoniada ela fuça a bolsa com urgência, buscando nicotina para acalmar os nervos, ignorando à animação de Gabi é começou a procurar um maço de cigarros desesperadamente.
— Eu vou é fumar. Preciso de ar.
— Cadê esse maço...
A mão dela, dentro da bolsa, encontrou o pequeno pedaço de papel que Ivan lhe dera.
Ela o puxou para fora, olhando-o com desdém revirando os olhos..
— Aff... O "poema" do Ivan.
— Era só o que me faltava agora.
- Declaração de amor cafona no meio da investigação.
Ela desdobrou o papel.
Ela desdobra o papel com uma mão, o cigarro na boca em seguida sua expressão mudou de irritação para uma confusão silenciosa o olho passa pelas letras. O cigarro cai da boca.
A expressão de tédio morre instantaneamente, substituída por um branco absoluto.
O cérebro dela trava..
Gabi, que estava distraída, percebeu a reação estranha da amiga, percebe o silêncio súbito.
Ela balança a mão na frente do rosto da amiga.
— Mulher? Terra chamando Vanessa!
— O que foi? O Ivan mandou nudes impressos?
- Que cara de enterro é essa?
Um close-up dramático tomou a página.
A câmera focou no pedaço de papel, amassado e seguro pelos dedos trêmulos de Vanessa.
Nele, escrito em uma letra de forma simples, estava o nome que conectava tudo.
Ao fundo, o rosto de Vanessa estava em choque total, como se ela tivesse visto um fantasma.
SUSPEITO: JOÃO CARLOS DE ANDRADE M.
FILIAÇÃO: [DADOS SIGILOSOS - BLOQUEIO NÍVEL 5]
NARRADOR
( E num pedaço de papel de pão, a caçada muda de rumo.
Não é uma resposta.
É uma pergunta ainda mais perigosa.)
Página 30 - O Chamado do Passado
Loft do JC na Zona Sul.
O caos do lixão ficou para trás.
O ambiente é clean, moderno, com luz indireta.
JC está afundado no sofá de design, banho tomado, vestindo uma bermuda confortável e camiseta limpa.
Fisicamente: Impecável. Nem uma cicatriz.
Mentalmente: O caos absoluto.
Mas seu olhar estava perdido, tentando juntar as peças de um quebra-cabeça impossível em sua mente.
(Pensamento)
"Caralhas, mano... que bad trip foi essa"
"Eu não uso nada pesado tem anos. Como é que eu acordei no meio do chorume"
O foco estava em seus pensamentos, mas com uma grande incógnita, uma mente em branco.
(Pensamento)
"Eu lembro da biblioteca... do grito... do sangue na mão do Velho. Eu saí de lá com ódio, dirigindo a mil..."
"E depois? Tela azul. Apagão total."
" Como é que eu fui "spawnar" numa viela de lixo do outro lado da cidade?
Nesse momento, JC começou a procurar algo em seu bolso, mas foi distraído pelo toque de seu celular.
— Cadê...?(Tateando)
— Se eu perdi aquela parada, eu tô ferrado.
O silêncio do loft é rasgado pelo toque estridente do celular jogado na mesa de centro.
JC se assusta.
SFX
TRIMM! TRIMM! TRIMM!
A tela do smartphone brilha na sala escura.
A foto do contato é uma selfie zoada do Valtinho fazendo careta.
O nome do contato confirma a lenda urbana que Gabi e Vanessa discutiram mais cedo.
VISOR DO CELULAR:
CHAMANDO: SACUDO
NARRADOR
O passado é um borrão.
Mas o presente... está chamando.
